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Estratégias de plantio de igreja – Parte Um

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Creio que as estratégias de evangelismo e plantio de igrejas devem ser construídas de acordo com os fundamentos missiológicos numa perspectiva bíblica, contextualizada e aplicável, portanto deveremos aqui nos reportar aos primeiros capítulos deste livro a procura de validação para cada estratégia mencionada. Michael Green[1] defende que as estratégias evangelizadoras no primeiro século eram claras, simples, envolventes e comunitárias. Ou seja, não eram complexas demais para serem reproduzidas apenas por um grupo restrito. Não eram obscuras, impedindo assim que sua compreensão escapasse da compreensão do povo. Não eram elitizadas pois poderiam ser viabilizadas por todo crente em sua área de vivência.
As estratégias são formas através das quais aplicamos um princípio. O princípio da evangelização bíblica, cristocêntrica, mandatária e transformadora se utilizará de diferentes formas em diferentes contextos para que seja compreendida de maneira inteligível e relevante.
Na década de 50, com a invasão comunista na China, os poucos missionários protestantes foram forçados a deixar o país[2]. Proclamou-se naqueles anos a morte da Igreja Chinesa que contava com poucas centenas de convertidos maduros que, por sua vez, sofriam forte perseguição. A adoração pública a Deus foi tolhida, a evangelização e testemunho pessoal do evangelho proibido, as reuniões perseguidas. Os programas de treinamento de líderes locais desapareceram juntamente com as organizações missionárias nestes primeiros anos. A Igreja Chinesa, porém, passou a utilizar ambientes menos públicos para se reunir, em grupos pequenos, transmitindo a mensagem a partir de relacionamentos sempre individuais, enfatizou a teologia bíblica que expõe o sofrimento necessário e produtivo dos santos e valorizou a Palavra que, contrabandeada, chegava aos lugares mais distantes. Este pacote de aplicativos seriam a estratégias utilizadas e podemos usá-las de forma intencional ou não. As mesmas sempre variam de lugar para lugar, tempo para tempo, de circunstancia para circunstancia. Desejar uniformizar as estratégias evangelísticas e de plantio de igrejas seria uma ingenuidade do ponto de vista socio-humano visto que o homem muda freqüentemente sua forma de se agrupar, relacionar, comunicar, compreender e vivenciar verdades. Os princípios permanecem.
Apesar de concordar com as expressões de Newbigin e Van Egen sobre a necessidade de uma evangelização direcionada ao homem e não ao grupo, e este homem inserido no contexto da vida, desenvolveremos neste capitulo uma abordagem comunitária no processo de plantio de igrejas. Ou seja, exporei aqui possíveis estratégias a serem utilizadas para um grupo específico e não um indivíduo, seja um segmento social urbano, um bairro em uma cidade ou mesmo uma etnia definida.
Na conferência de Wheaton, influenciada pela missiologia de McGravan e Glasser declarou-se que “a missão da Igreja é plantar igrejas em todas as comunidades da terra[3]. Defendeu-se que Jesus deseja ser conhecido por todo homem. Que seu sacrifício está banhado por um perfil kerygmático, proclamativo. Que a missão de Deus envolve o mundo e não parte dele. Que é preciso levar este evangelho a todos os agrupamentos sociohumanos na terra. Que isto é feito através da evangelização fundamentada nos princípios da Palavra e no plantio de igrejas vivas, missionárias e relevantes na sociedade.

Se cremos assim gostaria de lhes propor que o Plantio de Igrejas é a forma mais eficiente, auto-sustentável e duradoura de comunicar o evangelho dentro de um perímetro local, seja um bairro em contexto urbano, seja uma etnia culturalmente definida pois gera demanda pela comunicação de um evangelho culturalmente compreensível, estabelece localmente o Reino e duplica o efeito missionário pois igrejas plantam igrejas.

O modelo Paulino de desenvolvimento de estratégias de plantio de igrejas
A dificuldade em lidar com estratégias de plantio de igrejas é que em cada diferente contexto certas abordagens são mais aplicáveis. Ou seja, as estratégias de comunicação e plantio de igrejas estão interligadas aos princípios de contextualização. Desta forma a simples reprodução do modelo de igreja que conhecemos, em um ambiente distinto, pode ser catastrófico pois promoverá apenas a forma e não o princípio que deve ser transmitido com fidelidade. No coração das secas savanas africanas do Norte de Gana missionários coreanos iniciaram um processo de plantio de igrejas a partir do levantamento de uma grande estrutura física que possibilitasse o ajuntamento. Assim o templo, bem construído, poderia abrigar um bom número de pessoas da tribo Frafra. Suas salas de oração eram bem divididas e a construção poderia ser vista de longe como um marco daquele trabalho. Porém este templo não foi utilizado como planejado por diversos fatores. Primeiramente o povo Frafra não possui o costume de se ajuntar freqüentemente, preferindo pequenas reuniões com poucas pessoas. Também jamais se reuniu em lugares fechados, o que lhes causou pavor. O próprio piso do templo e lindas cores nas paredes também refletiam o óbvio: era um lugar para os brancos. Esta experiência nos mostra algo simples que precisamos compreender: a reprodução do modelo da igreja-mãe, ou igreja enviadora, não irá, necessariamente, colaborar para uma boa comunicação dos valores do evangelho. Precisamos distinguir o essencial do evangelho com sua roupagem cultural cristã moderna ocidentalizada.
Pensemos na estratégia de Paulo. Em Antioquia da Pisídia ele iniciou o evangelismo a partir da Sinagoga, pregando aos judeus. Estes ficaram tão impressionados que convidaram os missionários a voltarem na outra semana (At. 13:13-48). Em Icônio a mensagem comunicada na Sinagoga não convenceu a maioria. Paulo e Barnabé foram então usados por Deus manifestando Sua graça através de milagres e maravilhas (At. 14:1-4). Em Listra não há referência de Paulo pregando na Sinagoga. Usado por Deus para a cura de um homem Paulo fez deste momento uma ponte para pregar o evangelho a toda uma multidão (At. 14: 8-18). Em Tessalônica Paulo pregava na Sinagoga durante os sábados e na praça durante a semana. Historicamente ele se postava na “petros”, um suporte de pedra à saída do mercado, para ali anunciar diariamente a palavra do Senhor pelos que por ali passavam (At. 17: 1-14).
Portanto encontramos no ministério de um só homem, em uma mesma geração, diferentes abordagens e estratégias. Paulo fala a multidões mas também visita de casa em casa. Ele prega aos judeus na sinagoga mas também o faz fora da sinagoga. Utiliza praças e mercados jamais deixando de proclamar às multidões, mas se devota a indivíduos para discípula-los e treiná-los para a liderança local. Devemos, portanto, primeiramente compreender que não há estratégias fixas para a proclamação do evangelho. Apenas princípios fixos.
Em certas regiões com urbanização ainda provinciana e doméstica o evangelismo de porta em porta é funcional, bem acolhido pela maioria e processado em um ambiente de credibilidade social que é o lar. Em outras regiões com urbanização mais metropolitana e privativa torna-se quase impossível tal atividade evangelística perante os condomínios fechados e uma cultura de isolamento. No primeiro o homem é um ser comunitário e social, definido pelo seu grupo. No segundo o homem é um ser individual e existencial, definido por si mesmo, seus desejos e volições próprias. Todas as estratégias devem ser avaliadas de acordo com o contexto a serem aplicadas senão fracassarão.
Observamos no ministério Paulino de plantio de igrejas a percepção de que o homem é o alvo do evangelho. As abordagens, ou estratégias, devem variar de acordo com a forma deste homem se agrupar e pensar, porém o alvo deve ser mantido de forma clara e constante. Assim, seja pregando a três pessoas em uma praça pouco movimentada ou a milhares em uma grande conferencia evangelística, ou ainda proclamando o evangelho a uma família no aconchego de sua casa, sala de aula ou trabalho, o alvo é relacionar-se com o homem e gerar ali um ambiente em que o evangelho possa ser a ele comunicado e compreendido.
No modelo Paulino de plantio de igrejas podemos observar que as principais estratégias utilizadas foram:
a) Introduzir-se na sociedade local a partir de uma pessoa receptiva ou um grupo aberto a recebê-lo e ouvi-lo.
b) Identificar ali o melhor ambiente para a pregação do evangelho, seja público como uma praça ou privado como um lar.
c) Evangelizar de forma abundante e intencional, a partir da Criação ou da Promessa, e sempre desembocando em Cristo, sua cruz e ressurreição.
d) Expor a Palavra, sobretudo a Palavra. Expor de tal forma que seja ela inteligível e aplicável para quem ouve.
e) Testemunhar do que Cristo fez em sua vida.
f) incorporar rapidamente os novos convertidos à igreja, à comunhão dos santos, seja em uma casa ou um agrupamento maior.
g) identificar líderes em potencial e investir neles seja face a face ou por cartas
h) não se distanciar demais das igrejas plantadas, visitando-as e se comunicando com as mesmas, investindo no ensino da Palavra.
i) orar pelos irmãos, pelas igrejas plantadas e pelos gentios ainda sem Cristo, levando-as também a orar.
j) administrar as críticas e competitividade sem permitir que tais atos lhe retirem do foco evangelístico.
l) utilizar a força leiga e local para o enraizamento e serviço da igreja.
m) investir no ardor missionário e responsabilidade evangelística das igrejas plantadas.
Entre os Konkombas em Gana, ao plantarmos as primeiras igrejas, utilizamos das mais diversas estratégias. As mulheres, muito ocupadas, tinham um tempo mais livre apenas a caminho do rio para buscar água. Os velhos sentavam-se embaixo das grandes árvores ao final da tarde. Os jovens e homens casados estavam livres apenas durante a noite. As crianças corriam soltas o dia inteiro. Ali os evangelizamos: a caminho do rio, embaixo das árvores, mais tarde nas palhoças e brincando com as crianças. Durante anos fizemos isto sistematicamente. Usamos histórias e ilustrações bíblicas. Encenamos alguns atos do evangelho. Expusemos com detalhes o plano de salvação. Usamos símbolos da natureza para explicar a criação, seus provérbios para falar sobre o pecado, suas músicas que comprovavam o desespero no qual viviam. O centro era o evangelho, repetido várias vezes. A mensagem era Cristo, sua vida e cruz. Nem todas estratégias funcionaram bem, ou de forma constante. Mas muitas foram essenciais e percebo que a abundância na evangelização em múltiplas estratégias de comunicação facilita o processo inicial de plantio de igrejas. É o princípio do lançar da semente, sem saber qual germinará.
A Palavra de Deus foi um elemento centralizado no nascimento e crescimento da Igreja em Atos. Em Atos 6:7, 12-24 e 19:20 a Palavra é o agente condutor do crescimento da Igreja. Em Atos 20:32 Paulo recomenda os líderes em Éfeso à Palavra de Deus. Ou seja, o apóstolo Paulo vê na Palavra de Deus o conteúdo e poder para a transformação do homem e a utiliza de forma abundante e fiel. Uma das visíveis limitações nas atuais estratégias evangelísticas é o desuso da Palavra de Deus. Histórias, encenações, músicas e apelos são feitos, não raramente, de forma comunicativa, descontraída e interessante, mas sem o conteúdo da Palavra. As estratégias evangelísticas não devem estar jamais dissociadas da Palavra. Ao contrário, devem ser instrumentos para que a mesma seja colocada diante de todo homem. Devemos compreender que é a Palavra de Deus e não a capacidade humana que produz frutos. Toda eloqüência ou criatividade que possamos ter jamais será capaz de transformar vidas. No desenvolvimento das estratégias evangelísticas paulinas creio que o apóstolo partia da seguinte pergunta: de que forma, com que expressões, com qual abordagem, comunicarei a Palavra de Deus, clara e viva, a este grupo ? Estratégias possuem valor se elaboradas para comunicar o poder de Deus, a Sua Palavra.
Realidades que limitam o desenvolvimento de estrategias saudaveis para o plantio e crescimento de igrejas
Jorge Barro, em seu relevante livro Uma Igreja Sem Propósitos[4], observa com clara fundamentação bíblica os vícios que se perpetuam na Igreja após 2.000 de Cristianismo. O fato é que uma eclesiologia desgastada freqüentemente compromete a saúde e conseqüentemente a capacidade de reprodução de uma igreja local.
Observaremos aqui algumas realidades que podem impedir o desenvolvimento de estratégias para o plantio e crescimento de igrejas locais. Tais realidades devem ser avaliadas em cada contexto e sugiro aqui um auto exame ministerial caso você esteja envolvido em uma visão de plantio ou crescimento de uma igreja local.
1. Gigantismo sem mobilidade.
Ariovaldo Ramos em seu livro Nossa Igreja Brasileira[5] afirma que “Jesus não nos ordenou ser uma igreja que cresce mas sim uma igreja que aparece – “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens”.” De forma instigante e reflexiva Ariovaldo nos chama a atenção para a missão da Igreja e o desenvolvimento de modelos falhos na sinalização do Reino, e adverte que trocamos o amadurecimento pelo crescimento.
O gigantismo é um fenômeno que pode travar igrejas de 300 membros como também as de 30.000. Ocorre quando a igreja local gera uma estrutura pesada demais que a impeça de caminhar fora de seu ciclo interno. Toda a energia, recursos financeiros, recursos humanos, tempo e solução de conflitos são investidos para a demanda da própria membrezia sobrando pouco ou nada para as ruas onde estão a prioridade de Cristo.
Dick Sgoggings[6], consultor para desenvolvimento de estratégias de plantio de igrejas da Missão Pioneers e diversas outras organizações afirma que o gigantismo precede a extinção no mundo animal, e que este fenômeno pode ser também observado nas dinâmicas de plantio e crescimento de igrejas. Neste caso, pode-se observar que igrejas e movimentos missionários, grandes e pesados demais, tendem a perder a facilidade de se reproduzirem, especialmente quando o movimento de massa está integralmente dependente de poucas pessoas. Em igrejas grandes e saudáveis, algumas soluções para esta barreira natural ao crescimento tem sido o desenvolvimento de pequenos grupos, ou reuniões em lares, ou ainda a reprodução de congregações espontâneas e seletivas a partir da igreja mãe. Tais soluções vem da observacao de que igrejas, bem como movimentos missionários, centralizados, complexos e grandes demais perdem o seu fator multiplicador quando não associados a formas intencionais de reprodução.
Ao pensar em igrejas plantadoras de igrejas vem a minha mente vários bons e saudáveis exemplos. A igreja presbiteriana de Aracruz, no Espírito Santo é um deles. Durante a época em que o Rev. Ceny Tavares liderava aquele grupo, o mesmo cresceu de 37 membros para mais de 1.000 na igreja mãe e cerca de 3.000 nas igrejas organizadas, em 21 anos de ministério. A fim de facilitar o crescimento novas igrejas passaram a ser plantadas, intencionalmente, como um desmembramento espontâneo da igreja mãe. Assim pontos de pregação eram formados, passando a congregações a partir de um certo numero de famílias que eram desafiadas a se ligarem a esta nova comunidade e finalmente se organizavam em igrejas autônomas. Ao longo de duas décadas 6 igrejas foram plantadas em uma cidade com pouco mais do que 30.000 habitantes, além de outras 10 igrejas e congregações plantadas nos derredores da mesma. Este movimento de plantio de igrejas possibilitou um crescimento abrangente com a formação de vários pastores, investimento em dezenas de campos missionários locais e transculturais além de ações sociais relevantes nas áreas de habitação básica, educação e saúde.
Segundo o Rev. Ceny Tavares[7] os elementos que propiciaram o crescimento de igrejas a partir da igreja mãe foram principalmente: a) evangelização de casa em casa; b) evangelização sistemática de ruas e bairros com planejamento geográfico; c) treinamento para evangelização com os membros da igreja; d) distribuição abundante de literatura cristã e bíblias; e) início imediato do acompanhamento e discipulado aos novos convertidos; f) utilização dos leigos no processo evangelístico e de discipulado; g) utilização dos cultos dominicais como cenário também evangelístico; h) cruzadas evangelísticas pontuais e cultos em praças públicas; i) aproveitamento de oportunidades de ajuntamento.
Um dos exemplos de aproveitamento de oportunidades de ajuntamento ocorreu em uma final de campeonato estadual em que o time local disputava o título. A Igreja Presbiteriana de Aracruz providenciou um caminhão que foi conduzido ao campo durante o intervalo do jogo, que serviu de plataforma para a pregação do evangelho para mais de 10.000 pessoas naqueles poucos minutos. Além do estádio atipicamente silencioso ouvindo a Palavra, várias pessoas passaram a participar dos cultos e também se entregaram a Cristo nos dias seguintes. Pessoas que jamais entrariam em um templo evangélico para ouvir a Palavra de Deus.
Este modelo de multiplicação de igrejas propiciou à Igreja Presbiteriana de Aracruz uma possibilidade de crescimento saudável, sem se tornar imobilizada pelo gigantismo.
2. Centralização e elitização do clero
A centralização do clero tem sido, na história da igreja, uma conseqüência de sua elitização. A constantinizaçao da igreja a partir do concílio de Nicéia no ano 325 não deu apenas legalização para a fé cristã no Império Romano mas iniciou o processo de elitização do clero de forma mais ampla. Desta forma os elementos da verdade cristã passaram a ser manipulados por poucos na condução de muitos. Isto envolveu a leitura e pregaçao da Palavra, a liturgia cúltica, os sacramentos e também a legitimidade espiritual perante o povo. De forma oposta, no primeiro século os líderes encarnavam a figura de servos. Os apóstolos serviam a Igreja com o ensino da Palavra e os diáconos serviam a mesa para que os apóstolos pudessem realizar seu ministério. Ou seja, a liderança eclesiástica, de forma geral, tinha seus olhos focados no serviço para o qual foram chamados, por Deus, a realizar na igreja e no mundo. Eram servos.
Osio de Córdoba, no concílio do IV século, defende e homologa o que já ocorria há algum tempo em várias regiões onde o Cristianismo se enraizou: a transformação de um clero servil em um clero a ser servido. A metamorfose de líderes eclesiásticos, que antes chamados para servir a Deus na Igreja, agora se centralizam nas mesmas fazendo com que toda sua existência, organização, recursos e vocações orbitem ao seu redor.
Em nossos dias sentimos, mesmo na Igreja evangélica, forte tendência a uma liderança cada vez mais centralizadora e elitizada. Se por um lado a elitização do clero é conseqüência da postura da própria Igreja que mistifica e destaca seus líderes como seres especiais, acima da normalidade, por outro é fruto também do coração enganoso do próprio líder que procura para si uma posição em que seja servido, admirado e seguido sem questionamentos. É algo que nasce do coração e fruto da soberba. Uma das formas de andarmos na contramão desta postura egocêntrica na liderança é estarmos policiando nossos corações perante o Senhor em oração e meditação na Palavra. Em sua palestra “Pastoreando em meio ao caos”[8] Ricardo Agreste[9] nos desafia a, como pastores, servirmos ao Reino e não a nós mesmos. E para nos posicionarmos como servos é necessário estarmos ligados a Cristo que nos ensina o caminho. Ele menciona que “na medida em que oramos, ganhamos sensibilidade para perceber o que Deus está fazendo em nossas próprias vidas... A oração, diferentemente de muitas práticas contemporâneas, nos torna mais prontos ao mover de Deus e à confiança no que Ele está fazendo”.
Ao pensar em movimentos evangelístico de plantio de igrejas a partir da força leiga vem a minha mente a Juvep, no sertão brasileiro. A Juvep[10] Foi fundada em 1981 em João Pessoa, Paraíba, com a visão de plantio de igrejas no sertão a partir da evangelização intencional e assistência social. Sérgio Ribeiro, juntamente com valiosos irmãos e irmãs, implementaram uma consciência missionária na instituição a partir da necessidade de estabelecer igrejas que pudessem ter continuidade em sua vida e reprodução da mensagem nos lugares ainda sem o evangelho. Identificaram a zona rural nordestina com sua população de 12 milhões, apenas 0,1% de evangélicos e cerca de 10.000 povoados sem o testemunho de Cristo. Desta forma puseram-se a utilizar um modelo de viagens missionárias com impactos evangelísticos que envolviam caravanas de crentes dispostos a investir alguns dias de suas vidas neste projeto. Ali diversas abordagens eram usadas, tanto o evangelismo de casa em casa quanto a assistência de saúde e social. Em um segundo momento, após utilizar a força leiga das igrejas nas cidades nordestinas para estes impactos, a Juvep viu-se dirigida para investir no treinamento de obreiros leigos locais, sertanejos, o que viabilizou um novo passo para a evangelização do sertão nordestino pois, com obreiros leigos, locais, visionários e treinados seria possível agora haver não apenas impactos evangelísticos pontuais mas o desenvolvimento de processos de plantio e enraizamento de igrejas sertanejas.
O grande exemplo denominacional brasileiro no quesito de multiplicação de igrejas a partir da força leiga talvez sejam as Assembléias de Deus. Costumava-se afirmar que, em qualquer povoado brasileiro três instituições estavam presentes: Os Correios, O banco Bradesco e uma igreja Assembléia de Deus. A força leiga, com a visão da igreja mãe, atua como pontas de lança na evangelização, ajuntamento e viabilização de novas comunidades. Desta forma milhares e milhares de igrejas Assembléias de Deus, de diversos ministérios, levaram o evangelho aos lugares mais longínquos de nosso país em cerca de 50 anos de rápido crescimento.
A força leiga, a Igreja de forma geral, quando despertada, mobilizada e treinada na Palavra, pode multiplicar em percentuais altíssimos a força evangelizadora em um projeto de plantio de igrejas locais.
3. Ausência de estrutura física e logística facilitadora do crescimento
Há dois extremos quando pensamos na estrutura de templos e anexos na vida de uma igreja local. O primeiro é supervalorizarmos sua existência, forma, estética, localização e conforto. O segundo é desvalorizarmos sua função. Uma comunidade, para um crescimento em condições normais, necessita de um ambiente adequado que implica em espaço, acesso e localização. Estes três elementos propiciam um bom ambiente para o ensino da Palavra, desenvolvimento de atividades em conjunto, momentos de comunhão e adoração além de possibilidades de investimento em outras iniciativas, paralelas, como educação e saúde.
Creio que devemos investir em um espaço-ambiente onde a igreja se reúne, avaliando e adequando tal ambiente à presente vida da igreja bem como seus alvos futuros. Assim, caso uma igreja local compartilhe a visão de também abençoar e influenciar a comunidade local com uma escola de orientação cristã, é necessário que planeje ou adeque seu templo e espaço a tal dinâmica. Vivemos uma época de templos subutilizados em que um estratégico espaço é aproveitado para pouquíssimas e curtas reuniões semanais.
Na América do Norte não é incomum encontrarmos várias igrejas compartilhando um mesmo templo, em momentos diferentes para suas reuniões, utilizando mais plenamente a estrutura física e gerando condições para o investimento em outras áreas como missões e ações sociais relevantes. Na Nigéria igrejas locais nascem, invariavelmente, nas escolas públicas, emprestadas pelo governo nos finais de semana fazendo com que uma nova igreja tenha fôlego suficiente para investir e concentrar esforços em pessoas e não em construção. As igrejas lares do Norte da Índia possibilitam um rápido plantio de igrejas (10.000 igrejas lares foram plantadas por uma só iniciativa missionária local) onde 3 ou 4 famílias se reúnem em cada casa para adorar a Deus e estudar Sua Palavra. Esta estratégia logística estrutural minimizou a perseguição sofrida nos templos e possibilitou um crescimento que seria impossível se demandasse construções em larga escala de templos. Na Genebra reformada de Calvino as escolas eram organizadas ao lado do templo e uma administração centralizada facilitava a operação da mesma. Na Calvary Church Coreana seus templos e salas são utilizados, durante a semana, para atendimento psicológico, consultas médicas, escola primária e ensino profissionalizante.
A estrutura para o nascimento e crescimento de uma igreja local deve ser observada a partir da visão para o presente ministério. Estamos no momento construindo uma igreja indígena na cidadezinha de Santa Isabel do Rio Negro. A visão do ministério, liderado pelos missionários Jaime e Cleide Nascimento, é investir no ensino bíblico infantil. Para tal planejaram um templo que pudesse privilegiar o espaço para as crianças e prover os elementos necessários para seu bem estar. Mesmo de madeira e palha o salão infantil será no espaço mais reservado e tranqüilo, adequado à visão. A Presbyterian Church of Ghana, na África, possui como critério a construção de um novo templo (ou aumento das instalações do mesmo) no momento em que a comunidade local preenche 70% das instalações de culto e salas de ensino bíblico. O pressuposto aqui é que, apesar de não ser um elemento definidor do plantio e crescimento de uma igreja local, a ausência de uma estrutura física e logística contribuirá para o enfraquecimento do ministério de plantar igrejas ou facilitar seu crescimento.
Um dos ótimos exemplos que temos quando pensamos na estruturação de uma igreja local que propicie seu crescimento e reprodução é o ministério da IPM – Igreja Presbiteriana de Manaus. Rev. José João, com seu corpo de pastores e líderes, perante um templo que não mais comportava os membros e um crescimento numérico que poderia enfraquecer a comunhão desenvolveram um trabalho em grupos pequenos que pudesse colaborar para o crescimento e amadurecido de uma igreja cujo numero ultrapassava 2.000 membros tornando-a assim complexa do ponto de vista do ensino da Palavra, pastoreio, comunhão e também de estrutura que a pudesse alojar.
Ao longo dos anos os pequenos grupos foram implementados gerando ambientes de comunhão em que a pessoa poderia falar, ser ouvida, conhecer outras pessoas, se relacionar e estudar com outros a Palavra. A igreja local, desta forma, duplicou seu tamanho em poucos anos pois criara um cenário em que o crente, mesmo membro de uma grande igreja, possui condições de participar efetivamente da comunhão e serviço, e é motivado a evangelizar.
Porém, a Igreja Presbiteriana de Manaus desde o pastoreio do Rev Caio Fábio, pai, que antecedera o Rev. José João, já possuía forte paixão evangelística e atração pelo trabalho junto aos ribeirinhos. Três elementos eram necessários, assim, para deslanchar um movimento evangelizador entre ribeirinhos: uma estrutura de transporte (barcos), uma igreja bem mobilizada e equipes organizadas e treinadas para a evangelização em tal realidade. Estas três áreas foram fortalecidas de forma equilibrada ao longo dos anos. Hoje percebemos que a IPM conta com 10 barcos dedicados especificamente à evangelização ribeirinha, 100 obreiros treinados, em sua maioria envolvidos com este ministério, e uma igreja que respira missões entre comunidades ribeirinhas. Nos bastidores a estrutura é mais complexa a fim de sustentar este avanço. Há pastores especificamente destinados ao pastoreio e coordenação das equipes em cada rio como Rev. João Wilson e Rev. Djard dentre outros. Há uma secretaria localizada na igreja que cuida especificamente da movimentação dos barcos e da equipe e uma carga administrativa que a faz funcionar. Tal estrutura, entretanto, possibilitou o desenvolvimento de um projeto forte em significado, relevância e eficácia.
4. Foco no gerenciamento da instituição e não no pastoreio de pessoas
A influencia da auto-ajuda para finalidades gerenciais da vida crista, ministérios e igrejas, tem promovido uma perigosa associação da igreja local com o modelo empresarial. Uma crescente ênfase tem sido dada na organização de igrejas a partir do bom gerenciamento de pessoas/estrutura/finanças, perdendo o foco da Palavra, oração, adoração, comunhão e evangelismo e enfatizando puramente a estrutura que promova o bem estar e o entretenimento.
Há uma clara diferença entre um chefe, um gerente e um pastor. Enquanto o primeiro faz uma instituição trabalhar para si, e ao seu redor, o segundo faz a instituição trabalhar para si mesma, sua valorização e destaque enquanto instituição-empresa perante outras. Porém um pastor leva a igreja a Deus, desejar Deus, aprender a Palavra de Deus, viver para a glória de Deus. O foco do pastor, em seu ministério, não é a própria igreja, seus resultados visíveis, sua estrutura e sucesso comparados a outras igrejas, mas sim a consciência de que, como pastor, leva o rebanho a servir ao Senhor Jesus. Aqueles que visam a igreja, seu sucesso e destaque, como motivação ministerial podem conquistar excelência gerencial mas serão inaptos como pastores.
Tenho conhecido e observado algumas igrejas bem gerenciadas na América do Norte, porém imaturas e inconstantes. O bom gerenciamento provê a estrutura logística e física que citamos no ponto anterior, desenvolve uma administração ministerial que possibilita o líder coordenar de forma mais prática cada atividade da igreja e por fim trabalha efetivamente com planejamento e metas. Nada seria preocupante se o gerenciamento, em sim, não estivesse sendo encarado, e ensinado, como sendo o fator determinante do nascimento e crescimento de uma igreja local. Um dos líderes norte americanos de uma forte denominação nacional enfatizou que, a despeito da pregação da Palavra, os fatores gerenciais irão determinar o sucesso do plantio de uma igreja local. Uma afirmação das mais preocupantes.
Este engano por vezes influencia a muitos por um longo período devido a maneira como nós avaliamos uma igreja local. Em uma cultura pos-moderna, globalizada e pragmática uma igreja local, bem como um ministério, é avaliado de acordo com o sucesso humano que pode ser observado, tocado e contabilizado.
Nós nos esquecemos de que o desejo de Cristo é ter uma Igreja que o conheça e o siga. E para isto os elementos essenciais para o nascimento de uma igreja local não podem ser definidos a partir do mercado, do consumo, do sucesso quantitativo e projeção no meio mas sim pela maturidade cristã entre o povo, pelo amor à Palavra, por seguirem a Cristo. Certa vez visitei uma igreja no sudeste do Brasil a fim de participar de uma conferencia missionária. Enquanto seu líder me apresentava a sua estrutura física e planejamento de metas entrei em uma sala onde parte da liderança da igreja estava reunida tratando de assuntos pendentes do dia a dia da mesma. Observando um pouco pude perceber o quanto estavam desligados da Palavra de Deus e imaturos nos relacionamentos interpessoais. Ironias e carnalidade eram visíveis na conversa da liderança. Pensei que aquela igreja estava sendo avaliada por Deus mais pela maturidade de seus membros do que pela sua estrutura física e organizacional.
O gerenciamento de um projeto de igreja pode solucionar muitos problemas socio-humanos e contribuir para o desenvolvimento de hábitos pro-ativos. Porém apenas o estudo da Palavra amadurece o povo e o faz se parecer mais com Jesus.
Há 5 dinâmicas cristãs ao redor das quais a igreja deve orbitar: a comunhão entre os irmãos, a oração individual e como grupo, a adoração cúltica a Deus, o estudo da Palavra e a evangelização. Se nos concentrarmos nestas dinâmicas teremos assegurado estar plantando uma igreja-igreja e não uma igreja-empresa.
5. A perda do hábito evangelizador
Normalmente uma nova igreja, bem como seu plantador, possui um hábito evangelizador até a mesma atingir, em média, 200 membros. Com tal membrezia é possível sustentar a própria igreja com o uso de recursos humanos e financeiros bem como se pode definir uma estrutura física que venha a preencher a necessidade do grupo, além de haver número suficiente de crentes para a preparação de uma liderança local. Este é normalmente um momento de risco: a perda do hábito evangelizador.
No Canadá não são poucos os templos que estão a venda e muitos missiólogos canadenses e americanos observam tal fenômeno com curiosidade. Toronto, da cidade com uma das maiores incidências de templos evangélicos por pessoa há 50 anos torna-se hoje a cidade com um dos menores índices de igrejas ainda vivas. Dentre tantos elementos que contribuíram para o arrefecimento das igrejas cristas na cidade, um dos principais é a perda do hábito evangelizador. Pouquíssimas igrejas canadenses evangelizam seu próprio povo. Pouquíssimas igrejas canadenses evangelizam as próprias famílias que assistem aos cultos e reuniões. A Igreja Metodista de High Park, uma das comunidades cristãs de boa expressão em Toronto, declinou da prioridade da evangelização intencional algumas décadas atrás, quando contava com cerca de 3.000 membros. Hoje esta igreja não existe mais e seu templo estava sendo colocado a venda.
Em seu livro How People Grow, [11] Cloud e Towsend lançam luz no processo de crescimento de uma igreja local. Um dos fatores de destaque é a continuidade do processo evangelístico e de discipulado. Devemos entender que igrejas locais tendem a, naturalmente, diminuir. São pessoas que falecem, mudam-se ou passam a participar de outras congregações. Este fator, mesmo em países com alto índice de natalidade, é superior ao crescimento natural, atrelado ao crescimento das famílias. Com o novo fenômeno da flutuação de membros o compromisso de longo prazo com a igreja local foi substituído por uma tendência crescente de participação relativa em diversas igrejas. Se a igreja local não segue evangelizando e discipulando, dentro de um certo espaço de tempo ela poderá eventualmente morrer. Muitos motivos foram dados para a morte de boa parte da Igreja Protestante Européia, após ter experimentado tantos avivamentos e ser tremendamente usada por Deus para o envio de missionários e plantadores de igrejas para boa parte do mundo. Um dos motivos mais empíricos para este esfriamento e morte foi a decadência da evangelização. A Igreja que subsiste hoje na Europa é um reflexo desta conclusão pois enfrenta grandes dificuldades para expressar e apresentar Jesus aos que estão ao seu redor. Isto porque, ao evangelizarmos, não apenas comunicamos Cristo a outros, permitindo ver a igreja crescendo e amadurecendo, mas a evangelização também possui um efeito de reafirmação doutrinária. Nos relembramos do amor e poder de Deus, do sacrifício de Cristo, da obra do Espírito nos convencendo do pecado, do novo nascimento no Senhor Jesus.
Permitam-me citar a à Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte como modelo de igreja plantadora de igrejas. Sob o pastoreio do Rev. Ludgero, com o templo localizado em um espaço limitado ao crescimento estrutural no centro da cidade e farta visão multiplicadora, a igreja planta diversas igrejas a cada ano desafiando famílias da igreja mãe a se envolverem com estes projetos em diferentes lugares. Estas igrejas plantadas adquirem autonomia, liberando a igreja mãe a continuar o processo de plantio de novas igrejas, concentrando energia, financas e recursos humanos nos novos passos.
Rev. Ludgero iniciou ali seu pastorado em 1976 permanecendo, no total, por 29 anos. Havia em 1976 13 igrejas presbiterianas organizadas na grande Belo Horizonte, boa parte plantadas pela iniciativa do Rev. Denoel Eller, então pastor da Primeira Igreja. Hoje são 202 igrejas organizadas e uma quantidade significativa de congregações. A Primeira Igreja conta hoje com 12 congregações. Já chegou a ter 32. Havia 1 presbitério. Hoje são 14. Rev Ludgero, ao avaliar o ministério da Primeira Igreja nestes anos entende que ela possui em sua natureza o hábito evangelizador e disposição para o aproveitamento de oportunidades.
Creio que um diferencial a ser observado é a continuidade do hábito evangelizador. Enquanto tantas outras primeiras igrejas foram sufocadas por sua localização nos centros da cidade, pelo distanciamento do rebanho para bairros mais distantes e pelo cansaço dos anos, aquelas que mantiveram o hábito evangelizador não apenas continuaram crescendo mas se transformaram em igrejas plantadoras de igrejas. Muito poderia ser tido sobre inúmeras primeiras igrejas de diversas denominações, sobre as quais Deus derramou preciosa graça e foram usadas por Deus para alcançar a cidade, e por vezes a região ou Estado. Foram as pioneiras. A continuidade do hábito evangelizador, portanto, é condição de vida, de crescimento e multiplicação.
6. Ausência de planejamento, alvos e organização
O planejamento estratégico nos impulsiona a dimensionar nossos alvos, motivações, estratégias e abordagens. Vimos que o planejamento em si não é condição essencial ao plantio de igrejas, porém de grande valor estratégico e funcional.
Há vasto material escrito sobre processos organizacionais em prol da concretização de uma visão. Gostaria de compartilhar alguns passos que temos utilizado em nosso ministério a fim de cooperar com aqueles que necessitam trabalhar no planejamento estratégico
Não há sentido no desenvolvimento de um planejamento sem uma visão definida. A visão determina o rumo, o preço a pagar, a importância da missão e sua relevância. Em 2001 quando fomos desafiados a iniciar uma equipe missionária na Amazônia brasileira demos os passos necessários para concluir os projetos em andamento em Gana, África, onde atuávamos. Em 2002 realizaríamos os primeiros mapeamentos e levantamento de situação de campo para a formação de uma equipe. Porém era importante ter uma visão específica.
A Amazônia brasileira conjuga inúmeras necessidades espirituais e sociais. Poderíamos atuar entre ribeirinhos, com evangelização e desenvolvimento social. Ou entre indígenas, com auxílio educacional e evangelização. Ou ainda nas cidades e povoados centrais para onde há uma crescente aglutinação humana. Iniciar um projeto ministerial sem uma visão definida é ser irresponsável com seu tempo, energia e equipe. Rascunhada em minha agenda no final de 2001 nossa visão era: formar uma equipe que atuasse com etnias indígenas ainda sem o evangelho, promovendo ações sociais de relevância e evangelização, a partir de mapeamentos estratégicos e conclusões de necessidade do campo, organizaçao funcional da equipe missionária e coordenação dos esforços e iniciativas. Esta visão era suficiente para desenvolvermos estratégias e pensarmos nas abordagens.
Ore por uma visão definida de Deus. Busque do Senhor Sua visão para seu ministério neste momento de sua vida. Em 1998 realizei uma primeira visita a tribo Chakali, de Gana. Uma etnia com cerca de 10.000 pessoas vivendo em uma área remota entre Gana e Costa do Marfim. Com língua ainda ágrafa e um espírito de reclusão este grupo não se relacionava muito longe de seu universo tribal. Minha esposa, Rossana, e eu nos envolveríamos com eles durante cerca de 2 anos e muito aprendemos acompanhando este povo durante este tempo. Em uma de minhas incursões naquele território, seguindo para a aldeia de Dussê por uma savana plana e seca, conversava com um dos caçadores Chakali da região e ele me explicava o processo de caça. Enfatizava que um bom caçador não é um oportunista que sai para trazer carne para casa. Não é alguém que lança a sorte e sai observando onde um animal há de aparecer. Um bom caçador sabe o que busca. Se ele sai de casa para caçar um antílope ele compreende que o antílope será útil à família e à aldeia. O couro pode fazer novos tambores para as festas. A carne com bom teor de gordura pode alimentar crianças que necessitam crescer. Sendo um animal grande todos podem se alimentar sem que haja falta. Seus ossos, fortes e fáceis de afiar, são usados para pontas de lança e punhais. Portanto este caçador não sai de casa para procurar um animal. Sai de casa para procurar um antílope. Ao longo do caminho encontrará muitas pegadas, porém as que lhe interessam são as de antílope apenas. Neste dia ele observará as pegadas de javalis e passará ao largo. Apenas um caçador que tem em mente sua caça, seu alvo, consegue trazer para casa o animal que precisa. Outros, que saem a caça de qualquer animal, conseguirão o incerto. Só se caça um antílope se, ao sair de casa para caçar antílopes.
Este meu amigo caçador estava, em outras palavras e um outro contexto, falando sobre visão. A visão era o antílope e apenas ao focar a visão é possível desenvolver estratégias para atingi-la.
Permita-me lhe falar sobre alguns possíveis passos organizacionais:
1. Primeiramente é preciso haver uma visão definida, que nos mostre o rumo, que se sustente pelas motivações corretas e aponte onde desejamos chegar. Talvez a visão do caçador Chakali fosse manter a aldeia alimentada contribuindo para seu bem estar e segurança.
2. Com esta visão bem definida em mente (e é bom escrevê-la) nascem os alvos. Os alvos são as concretizações a fim de que a visão seja implementada. Assim o caçador Chakali, visionando manter alimentada a aldeia lança um alvo: caçar um antílope naquele verão. Os alvos podem, e devem, ser específicos e desenhados de forma que cooperem para a implementação da visão.
3. As estratégias são as maneiras de se atingir um alvo. Para aquele caçador Chakali havia muitas estratégias a serem desenvolvidas: andar só pelas planícies ao final da tarde, com o vento contrário, a fim de surpreender os antílopes que porventura estivessem à beira do riacho Kukunha. Dormir à beira da mata, de onde saem, a noite, os antílopes para passear nas savanas. Camuflar-se com folhas e permanecer imóvel durante as noites. As estratégias são as maneiras que te levarão a atingir seus alvos e portanto seguir a visão.
4. As abordagens são as ferramentas com as quais aplicamos as estratégias. Também chamadas de “atividades”. Pode-se, nesta altura, detalhar mais cada passo e cada fase. A abordagem a partir de uma permanência imóvel e camuflada durante as noites, na caça do antílope, implica em atividades como preparar a camuflagem, escolher o local certo e assim por diante. Estas atividades devem estar claras a fim de que as estratégias funcionem nos levando a atingir os alvos e seguir a visão.
Nesta altura é possível escrever o projeto, dividi-lo em fases e propor um organograma.
Um projeto de plantio de igrejas pode ser preparado com o seguinte sumário:
1. Introdução e apresentação da visão.
2. Problemática e exposição do contexto (grupo, bairro, segmento social) alvo.
3. Dimensionamento social. Características do grupo.
4. Justificativa. Porque uma ou mais igrejas devem ser plantadas neste lugar entre este grupo.
5. Apresentação do perfil da pessoa ou equipe que tenciona plantar igrejas neste contexto.
6. Alvos gerais.
7. Alvos específicos.
8. Estratégias para se atingir os alvos específicos e gerais.
9. Abordagens (atividades) a serem utilizadas, detalhando as principais estratégias.
10. Fases do projetos e cronograma de atividades em cada fase.
11. Períodos de reavaliação.
12. Conclusão.
Percebo, porém, que a existência de um projeto com visão definida, alvos, estratégias e abordagens, não é suficiente para manter-nos organizados no processo de plantar igrejas. É necessário que o plantador de igrejas tenha, também, uma boa organização pessoal. Conheço projetos brilhantes, com visões claras e ótimas propostas que nunca foram implementados pela ausência de uma organização pessoal de quem os liderava.
Creio que o plantador de igrejas precisa manter três atividades de organização pessoal básica: a) Compreensão do projeto ministerial e de vida; b) Lista de atividades ligadas ao projeto ministerial; c) ambiente de registro de atividades e considerações gerais.
A compreensão do projeto ministerial é vital para definirmos nossa caminhada pessoal. É importante casar nosso projeto ministerial com nossa rotina diária.
O Rev. Hernandes Dias Lopes é um dos mais conhecidos e abençoados conferencistas e escritores em nosso país. Seus sermões e livros têm transformado a vida de milhares e milhares de pessoas. Com dezenas de livros, uma agenda lotada e o pastoreio de uma grande igreja muitos poderiam se perguntar como ele consegue produzir tanto material literário. Ao inquirir sobre sua organização para escrever seus livros, a que momento do dia e como o faz, ele me respondeu que o fazia “a todo momento”. Ao encarnar o projeto ministerial em sua vida diária ele potencializa seus momentos de trabalho escrevendo ao viajar, em casa, entre aconselhamentos e ao preparar os sermões. A compreensão do projeto ministerial e encarnação do mesmo em nossa rotina de vida é vital para cumprirmos a visão levando a cabo nosso chamado.
Defendo que cada ministro e, conseqüentemente, plantador de igrejas, deve manter uma boa agenda onde organize suas listas de atividades. Pessoalmente trabalho com quatro listas principais: a permanente (que contém atividades ou “sonhos” mesmo de médio/longo prazo); a atual (que contém atividades para o desenvolvimento dos projetos com os quais estou envolvido; a mensal (que seleciona na “atual” as atividades a serem desenvolvidas naqueles mês; e a semanal, que o faz para a presente semana. É necessário sempre revisar a permanente e sincronizar bem as outras três.
Uma agenda não é a única forma de organização pessoal. Eu a utilizo pela limitação que tenho para concentrar-me no que é de fato importante e coordenar uma lista de prioridades. Há quem o faça sem nada escrever e outros que necessitam de uma equipe ou alguém a quem prestar contas a fim de que trabalhe bem. O importante é desenvolver um sistema que lhe ajude a saber o que deve fazer, com qual prioridade e quando.
Um dos ministros que admiro pela capacidade de administrar e transmitir uma visão é o Rev. Jeremias Pereira. Anos atrás ele explicitou sua visão de cooperar com “a Igreja pobre”. Tencionava se envolver com aqueles que precisariam de ajuda, motivação ou apoio para levar adiante o evangelho nos lugares mais improváveis e com graves necessidades humanas e sociais. Por onde passo, ao encontrar-me com uma “igreja pobre” freqüentemente ouço da presença ou apoio do Rev. Jeremias e a Oitava Igreja de BH. Nos ribeirinhos da Amazônia, em trabalhos missionários indígenas em lugares remotos, no vale do Jequitinhonha, no sertão Nordestino, além mares em diversos países. Com uma mente prática e coração cheio da visão de Deus ele esboça em minutos um plano de ação para que um passo a mais seja dado no apoio do povo de Deus. Administrar uma visão é encarná-la de tal forma que ela possa influenciar seu pensamento diário e gerar atividades práticas e aplicáveis.
Quando menciono a necessidade de um ambiente de registros refiro-me a relatórios que possam lhe ajudar a avaliar o presente projeto. Escreva-os pelo menos a cada três meses. Um arquivo básico (com pastas específicas) deve conter os documentos relacionados ao projeto, relatórios de atividades, relatórios financeiros, registros oficiais, parcerias e contratos, e assim por diante. Ou seja, manter o registro do projeto e seu desenvolvimento é de suma importância para sua posterior avaliação, geração de micro projetos dentro de um projeto maior, e também para prestação de contas.
Imagino um plantador de igrejas como uma pessoa que tenha no coração a visão de Deus, inflamada, que o incomode e alegre a cada dia. Em sua mente estão as estratégias, borbulhantes, sempre perguntando a si mesmo enquanto caminha se isto ou aquilo poderia cooperar para cumprir a visão. Em suas mãos as ferramentas, o trabalho e o suor. Ele está nas ruas e não em casa. Está caminhando e não recluso. Está entre o povo. Em casa possui uma agenda e um arquivo. Organiza seu projeto de forma a sempre saber pelo que orar, a pensar no próximo passo e poder avaliar a caminhada. Em sua boca está o evangelho. Não cessa de falar de Cristo. Em seu testemunho está o caráter de Jesus. Mesmo quando calado deve influenciar quem com ele convive. Se trabalha em equipe deve manter o equilíbrio entre a visão e a equipe. A visão define os alvos mas é preciso conhecer sua equipe, capacidade e limitações, para traçar estratégias viáveis. Ele ora sempre, buscando a Deus e Sua bondade. Deseja servir ao Senhor com tudo o que tem.


[1] Michael Green, Methods and strategy in the evangelism of the early church. Em Let the earth hear his voice. International congress on world evangelization, ed. J.D.Douglas, 159-172. Minneapolis, MN: World Wide Publications 1975
[2] New Frontiers, NY 1972
[3] Declaração de Wheaton 1966, 467; Moreau 2000a, 223
[4] Uma Igreja Sem Propósito. 2004. Editora Mundo Cristão
[5] Nossa Igreja Brasileira. Editora Hagnos 1956, pg 22.
[6] Missiólogo e plantador de igrejas nos EUA e Inglaterra, tem servido como consultor para desenvolvimentos de estrategias de plantio de igrejas (e trabalho em equipe) em diversas organizacoes missionarias. Seu site www.dicksgoggins.com provê uma série de artigos e ensaios a respeito do assunto
[7] Rev. Ceny Tavares atualmente se encontra pastoreando a The Reformed Church in America, em Toronto no Canadá, há seis anos de ministério tendo já plantado 5 igrejas em diferentes lugares do país. www.vidanova.ca
[9] Ricardo Agreste da Silva é Mestre na área de Missões Urbanas pelo Calvin Theological Seminary (USA) e professor do Seminário Presbiteriano do Sul. Plantador da Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera em Campinas e coordenador do Projeto Timóteo (ministério com jovens pastores)
[11] Henry Cloud and John Townsend. 2001. How people grow. Zondervan. Grand Rapids
Última atualização em Qui, 09 de Outubro de 2008 00:37

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