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Tradução Bíblica numa sociedade minoritária

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Palestra apresentada na Semana do Tradutor, UNESP, São José do Rio Preto, 27/09 - 01/10/04
Robert A. Dooley, Sociedade Internacional de Lingüística
Resumo: A tradução bíblica em guarani mbyá não difere, em princípio, de outras traduções que são geradoras e produtos da cultura, exceto na observação de que ela apresenta mais afinidades com a cosmovisão indígena do que com as ideologias do homem moderno. A própria população alvo é que deve determinar se a tradução deve ser feita ou não.

É um privilégio eu estar aqui. Durante os 29 anos do meu estudo da língua guarani, dialeto mbyá, esta é uma das raras vezes que tenho a oportunidade de expor o lado lingüístico e cultural do trabalho no nível acadêmico. Além da análise lingüística, na tradução meu projeto principal tem sido a tradução da Bíblia nessa língua. Aliás, o meu papel tem sido o de acompanhar e assessorar uma equipe guarani de tradutores, composta de 4 a 6 pessoas. Os guarani mbyá têm uns 8000 falantes dentro do Brasil, em pelo menos seis estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo. Outros 8000 ou mais falantes desse dialeto vivem no Paraguai ou na Argentina. O Novo Testamento foi publicado em 1987 e a Bíblia completa foi lançada em março do ano presente, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, com outro lançamento no Museu da Bíblia em Barueri. Possivelmente foi decorrente desse lançamento que eu fui convidado para a Semana do Tradutor, convite que agradeço muito. Apesar do meu trabalho ter sido principalmente no estado do Paraná, vim aqui agora de uma aldeia guarani perto da capital paulista, onde, nos primeiros dias desta semana, eu e Arlindo Tupã colaboramos com a prefeitura num pequeno curso sobre a escrita em guarani mbyá, para uns 30 professores dessa etnia. O que tenho a dizer tem duas partes. Na primeira, quero falar sobre a relação entre a tradução da Bíblia e a cultura guarani mbyá em termos do tema desta semana, “Tradução: geradora e produto da cultura”. Na segunda parte, quero que pensemos juntos sobre a questão da legitimidade da tradução bíblica — se a tradução deve ser feita ou não — numa sociedade minoritária, como na dos guarani.

Em relação à cultura, a Bíbla em guarani mbyá funciona como geradora e produto, exatamente como outros tipos de tradução em outras sociedades. Vou abordar esse assunto tocando em quatro aspectos: a atitude da população guarani para com a tradução, a participação dos guarani no processo, resultados concretos da tradução e uma comparação entre conceitos bíblicos e conceitos culturais. O assunto é vasto e o tempo é curto; vou tentar ser conciso e honesto e citar exemplos representativos de uma massa de evidência bem maior. Fico à disposição para suas perguntas e comentários no final da palestra.

Quanto às atitudes dos guarani para com a tradução da Bíblia, vou começar citando duas conversas com xamãs idosos, que tivemos durante os primeros anos do nosso trabalho. A primeira foi com o velho Artur, patriarca e fundador da comunidade guarani no local. Eu e a minha esposa Katia havíamos começado a apren­dizagem da língua; um dos nossos informantes era filho do Artur. Um dia Artur chegou em nossa casa e perguntou à Katia porque estávamos querendo aprender a língua guarani. Ela lhe mostrou uma Bíblia em português, outra em inglês, ainda outra na língua dos índios kaingang que moravam perto, e indicou que a Bíblia também existe na língua dos nossos vizinhos alemães, italianos, poloneses e ucranianos, e que nós tínhamos interesse em ajudar em traduzí-la em guarani. O velho Artur, sempre muito expressivo, disse na sua língua, “Como é que ela não existe em nossa língua? Vocês têm que fazer! Nossa língua é boa também!” Pouco tempo depois, um outro velho xamã, Crispim, um homem mais refletivo, me disse: “Quando nós guarani ouvimos uma história dos antigos, uma pessoa se lembra de uma maneira, outra pessoa de outra. Ficamos em dúvida, com várias versões. É bom que as palavras de Deus foram escritas. Nós queremos ter também.”

Conversas como essas ficam gravadas na memória. Mas evidência maior da atitude dos guarani para com a tradução bíblica, tem a ver com o fato de que a tradução da Bíblia leva anos – geralmente quinze anos ou mais para o Novo Testamento, trinta ou mais para a Bíblia completa – e ela requer contato longo e inten­si­vo com a comunidade receptora. Se uma comunidade indígena não apoiar a tradução da Bíblia por qualquer razão, o tradutor branco não acharia ajudantes e ficaria só. Qualquer projeto de longo termo com um grupo indígena só irá ter êxito se a comunidade valorizá-lo, ou pelo menos tolerá-lo. Durante os nossos anos com os guarani, eu nunca ouvi um guarani dizer que não queria a Bíblia na sua língua.

Quanto à participação dos guarani no processo de tradução, já mencionei que meu papel era de ajudar uma equipe de tradutores guarani. Devido ao baixo nível de escolaridade em geral que ainda hoje persiste, nenhum membro da equipe tinha mais que quatro anos de escola. Vários deles eram autodidatas na leitura do português. Mas isso não quer dizer que ficavam como massa a ser moldada. Os guarani em geral têm idéias bem definidas nos assuntos tocantes a eles, como o etnógrafo Egon Schaden mostra (1962/74). Descobrimos a verdade disso em relação à tradução. Por exemplo, os tradutores recusaram uma tradução muita simplifi­cada ou demasiadamente adaptada ao seu contexto. Quando traduzimos o ditado de Jesus sobre camelo que passa pelo fundo de uma agulha, sugeri que poderia ser mais compreensível se substituíssemos vaca em lugar de camelo. Essa idéia não foi aceita. Os tradutores guarani perguntaram assim: “Jesus falou sobre camelo ou vaca?” “Camelo.” “Então, será que nós não somos capazes de entender o que é camelo?” Ponto final.

As modificações estilísticas feitas pelos guarani foram radicais. Completamos uma versão experimental do Novo Testamento sem muitas condições para testá-la. Quando ela foi experimentada pelos guarani durante um ano da nossa ausência, a comunidade fez tantas mudanças estilísticas que, em vez de fazermos as correções nos arquivos eletrônicos, foi mais fácil re-digitar tudo de novo, e depois re-testar, um processo que levou mais cinco anos. Nessa revisão estilística, varios tipos de repetição foram reduzidos, e certas informações implícitas no texto original, que foram inicialmente supridas na tradução, foram depois tiradas do texto e colocadas em notas de rodapé, no glossário, ou em outros lugares.

Os tradutores guarani, então, participaram com idéias definidas. Na sua tradução, eles queriam uma linguagem que não incluísse tantos empréstimos do português que usavam no dia-a-dia. As suas idéias abrangiam também a interpretação do texto fonte, que para eles era uma tradução da Bíblia em português. Eu, no papel de assessor, explicava o sentido do texto original grego ou hebraico e mostrava o que uma determinada expressão em português significava em outros lugares, mas as decisões exegéticas foram feitas pela própria equipe. Os seus membros me disseram o seguinte: “Roberto, para esta tradução sair certa em guarani, ela tem que ser nossa. E para ser nossa, nós temos que entender o que ela quer dizer e decidir como ela deve ficar.” E assim foi. Se alguém perguntar se a tradução resultante em guarani é acurada em relação ao texto original e se ela fica dentro das normas exigidas pela Sociedade Bíblica que a publicou, a resposta é “Sim”, mas levou um tempo para chegarmos lá. Os tradutores guarani queriam entender, nas próprias categorias deles, a justificativa de cada elemento na tradução.

Agora quero mencionar dois resultados concretos, empíricos, do processo da tradução: a pesquisa lexical e a fundação de uma editora na língua guarani mbyá.

Como os tradutores guarani queriam usar termos autênticos do guarani em vez de empréstimos do português, eles eram forçados a pesquisar o léxico da sua língua, geralmente junto a falantes mais idosos. A pesquisa lexical, conforme Mona Baker (1993), é um fenômeno lingüístico que acompanha a tradução em geral, pois demonstra competência na língua. Historicamente, ela se manifesta especialmente na tradução da Bíblia. O historiador e teólogo africano Lamin Sanneh, no seu livro Traduzindo a mensagem: o impacto missionário na cultura, cita o caso da língua Zulu como sendo representativa neste particular: a tradução da Bíblia em Zulu deu ímpeto a um grande interesse pela língua, inclusive pelo léxico e a literatura oral (Sanneh 1989:167). A tradução em guarani produziu um resultado semelhante. Um dos tradutores, o filho do velho Artur que citei antes, mantinha, e ainda mantém, um dicionário que registra os resultados das suas pesquisas na língua. Dentro da equipe de tradução, havia debate constante sobre o léxico e a gramática. Essa reflexão lingüística durou quase 30 anos. Em termos do tema desta semana, a tradução se tornou produto da cultura, pois buscou suas raízes nos conhecimentos dos falantes mais idosos, mas era também geradora da cultura, no sentido de revigorar a língua pela difusão desses conhecimentos, primeiro dentro da própria equipe, e depois entre os leitores e ouvintes em geral. Hoje em dia, os guarani mbyá falam um português melhor e um guarani mais puro do que falavam uns trinta anos atrás.

Desde o começo do nosso trabalho, tentamos estimular interesse na escrita das histórias antigas, contos e experiências pessoais. Eu trouxe um livrinho feito na época por escritores guarani mesmo antes que a gente começou a trabalhar: ‘O casamento do leão com a filha do veado e outras lendas’ (1966). Nos últimos anos da tradução, começamos a reconhecer que a equipe de tradução tinha habilidades na língua e uma dinámica produtiva grupal que seriam perdidas se a equipe simplesmente dissolvesse com a conclusão da tradução.

Encaramos também o fato das crianças guarani não terem livros para aulas na língua. Resolvemos então formar uma editora indígena para o grupo continuar a trabalhar em prol da necessidade da comunidade pela literatura na língua. Foi construido um Centro para a Produção de Literatura Guarani e organizada a Editora Nhombo'ea Guarani, com o apoio de uma associação local, a Associação Mundo Indígena.

Visitem a associação e a editora no site www.mundoindigena.org.br. A equipe da editora escreve e ilustra cartilhas e outros livros. Eu trouxe exemplares de um jornalzinho do aluno em guarani, que a editora produz e envia quatro vezes ao ano, gratuitamente, a todas as escolas guarani mbyá no país. Em 2003, a USP adotou as cartilhas para seu curso Magistério Indígena, que treinou mais de 25 professores em guarani que atuam no estado de São Paulo. Para esse curso foi convidado também um membro da editora, Arlindo, que mencionei antes, para dar aulas sobre a língua guarani, especialmente na sua forma escrita. A editora guarani faz pouca tradução — quase todo o seu material é original, escrito na língua — mas ela é um fruto do processo de tradução: reverte, para a cultura, benefícios provenientes do seu trabalho na tradução.

Agora vamos examinar o nível conceitual. Vamos comparar conceitos bíblicos com conceitos correspondentes na cultura guarani, observando onde os dois correspondem ou divergem. Esse tipo de pesquisa pode ser feito com qualquer tipo de tradução em qualquer cultura. Começamos com conceitos que encontramos na Bíblia que não acham correspondência estreita dentro da cultura guarani.

Conceitos na Bíblia, que são alheios à cultura guarani, incluem os seguintes:

· Reis e costumes da corte real, tais como eunucos, concubinas, tronos e a sucessão consangüínea - Todos esses conceitos são desconhecidos, mas a coroa não é (coroa é semelhante a cocar), nem o bastão é desconhecido (na cultura guarani, um bastão é usado por líderes tradicionais).

· A guerra antiga, inclusive carros de guerra, escudos, cidades com muralhas são geralmente desconhecidos, mas o fato de guerra é conhecido, junto com armas tais como arco, lança, espada.

· Povos e etnias diferentes, tais como egípcios, hebreus, babilônios, judeus. São etnias desconhecidas, mas o fato de existirem etnias bem diferentes não é estranho, pois os guarani conhecem kaingangs, alemães, italianos, e outras variedades de brancos.

· Lugares diferentes, tais como Judéia, Jerusalém, Babilônia são conceitos novos, mas é de se esperar que existam lugares desconhecidos, e os lugares bíblicos ainda existem, às vezes com outros nomes.

· Animais desconhecidos, tais como camelo e urso, são geralmente apresentados com ilustrações.

· Elementos da religião judaica, tais como templo, sacerdote, altar, sacrifício animal, dízimo, circuncisão, levita - são todos conceitos novos. Para ‘sacerdote’, experimentamos com o termo para xamã, mas as diferenças foram julgadas grandes demais, e acabamos emprestando o termo do português e explicando as suas funções. ‘Dízimo’ é difícil por ser um conceito matemático, mas a oferta das primícias, que fazia parte da religião judaica, corresponde ao que os guarani fazem cada ano, apresentando a Deus, e batizando, a primeira colheita do milho e de outros produtos.

· Igreja é uma instituição que antes não existia na cultura, mas ela é conhecida porque existe nos arredores da comunidade indígena, nas cidades e vilas por onde os guarani passam.

· Anjos em si não são conhecidos, mas em certos aspectos anjos são semelhantes aos tupã, que vivem nos céus e produzem relâmpago e trovões.

Esses são conceitos que são alheios à cultura guarani, conceitos antes desconhecidos.

Agora vamos passar a examinar conceitos que a Bíblia e a cultura guarani têm em comum, aliás, são conceitos com correspondência apenas parcial. Pois a extensão do conceito bíblico às vezes vai além do termo guarani. Por outro lado, o termo guarani quase sempre traz bagagem da cultura que vai além do conceito bíblico, pelo menos além da nossa concepção costumeira dele. Inevitavelmente, o termo guarani apresenta o conceito bíblico numa nova luz. Mas, uma vez dentro da tradução, ele fica sujeito à influência do contexto bíblico, e pode adquirir sentidos novos. Este tipo de troca-troca conceitual entre o mundo bíblico e o mundo guarani, que sempre faz parte da tradução, fica claro na lista que vou apresentar agora.

· Deus - Começamos com o nome de Deus: Nhanderuete ‘nosso pai verdadeiro’. Foi esse nome que usamos na tradução, ou seja, a tradução bíblica afirma o Deus que os guarani adoram. A comunidade guarani mesma, não apenas os tradutores, resolveu que esse nome seria certo na tradução. Se perguntássemos a qualquer guarani se Nhanderuete é o pai verdadeiro de todas as etnias ou só dos guarani, a resposta, 100% das vezes, seria que Nhanderuete é o pai de todas. Se perguntássemos se ele fez o mundo todo ou só a parte que os guarani ocupam, a resposta seria que ele fez o mundo todo. Ele cuida só dos guarani? Não, ele cuida de todos. Portanto, o conceito de Deus que os próprios guarani têm, fica longe da noção de que cada grupo tem seu próprio Deus: para os guarani, existe um Deus universal, como a Bíblia também diz. E os guarani sabem como ele é: Ele é moral e misericordioso, cuida dos seus filhos, e cada dia ele passa, em forma do sol, para nos contar, verificando se estamos todos aqui. E, se neste último detalhe a noção guarani de Deus ficar além do conceito bíblico, o que diríamos? A tese do historiador africano Lamin Sanneh, no livro que já citei, é que a tradução bíblica nas línguas africanas, longe de impor uma mensagem fixa ou alheia, necessariamente aceita as categorias das culturas receptoras e coloca a mensagem à mercê dessas culturas, que às vezes a retrata de uma maneira imprevisível. E apesar da tradução bíblica ter coincidido com a onda de colonialismo que fraturou o continente africano, no fim da história, conforme Sanneh, a tradução ajudou a fortalecer as sociedades africanas a tirarem o jugo dos colonizadores, porque afirmou e elevou o valor dessas sociedades face à incursão européia (Sanneh 1989:3-5). A mensagem pode parecer modificada, pois ela é semente plantada em solo diferente, mas, ao mesmo tempo, ela fica estranhamente fiel ao original — estranhamente, porque a forma da planta é outra; fiel, porque a planta é a mesma. Será que o Deus da Bíblia pode ser o mesmo Nhanderuete que passa cada dia contando seus filhos? Essa questão pode ser debatida nas faculdades teológicas, mas na tradução em guarani, Deus não tem outro nome. E, estranhamente, encontramos estas palavras de Jesus: “Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontado do vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados” (Mateus 10:29-30). Por outro lado, acontece como no caso de qualquer outro livro: a maneira do leitor pensar sobre um conceito chave tal como ‘o Deus da Bíblia’, vai se amoldando através do próprio conteúdo que ele encontra. A conceitualização, pois, passa nas duas direções: do leitor para o livro e do livro para o leitor, da cultura para a bíblia e da bíblia para a cultura. A tradução é produto e geradora.

· O pecado – O verbo ‘pecar’ em guarani é –jejavy. É derivado da raiz -javy ‘errar’, usado para errar um caminho, mas no lugar do objeto direto ocorre o prefixo reflexivo je- ‘se’, que produz o significado de ‘errar-se a si mesmo’. A idéia é a seguinte: quando você faz alguma coisa que Nosso Pai Verdadeiro não quer, você não peca contra ele apenas, mas prejudica-se a si mesmo, pois errou o caminho da sua própria vida. Em guarani, o pecado é ligado ao Nosso Pai Verdadeiro, pois foi ele que estabeleceu as normas; do outro lado, o pecado é ligado à própria pessoa, que sofre os resultados. O que é que Nosso Pai Verdadeiro quer que façamos? Ele quer que sejamos generosos com nossos bens, que mostremos respeito a todos, que lembremo-nos dele nas bênçãos que ele nos envia, que sejamos modestos, que fiquemos contentes em ser guaranis, pobres nos bens deste mundo passageiro mas ricos em espírito para com ele e uns para com os outros, e assim por diante. O que ele quer que não façamos? Que não fiquemos facilmente irritados, que não fiquemos bêbados, fora de controle, que não tenhamos ciúmes dos bens do homem branco, que não abandonemos os nossos cônjuges, e assim por diante. Esse é o conceito guarani do pecado, como eu o entendo. Às vezes é dito que nas sociedades indígenas não existe o conceito do pecado na relação vertical com Deus, apenas a vergonha na relação horizontal com os outros membros da comunidade, e que o pecado é um conceito que o missionário introduz. Na minha experiência, os guarani têm um forte senso da vergonha, sim, mas também têm um forte senso do pecado, por serem conscientes da dimensão vertical em relação ao Nosso Pai Verdadeiro. Qualquer grupo que deriva suas normas e valores de um Deus primordial, até esse ponto tem uma ligação vertical. Outra vez, é notável a convergência entre o conceito guarani e o conceito bíblico, como o encontramos nos dez mandamentos e nos ensinamentos de Jesus.

· Um senso do sagrado é comum nos dois sistemas. Na Bíblia, o templo é um lugar sagrado, e tem seu santo dos santos e pães da proposição. Na cultura guarani, a casa de reza é de acesso limitado também, e tem seu pão sagrado, especial, que é só comido numa cerimônia religiosa. Existe lugar sagrado para o homem moderno?

· Um valor e um pecado em particular, a paciência e a impaciência, são fundamentais na cultura guarani, como na Bíblia também: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. ... Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor” (1 Coríntios 13.4-5).

· A realidade da cura sobrenatural é um dos fundamentos da religião tradicional dos guarani. Na Bíblia, quando Jesus efetua curas, os guarani não zombam da idéia.
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O mundo dos espíritos - Perigos devidos a espíritos maus são realidades quase diárias entre os guarani. É importante proteger o próprio espírito da pessoa contra os males invisíveis. Nessas circunstâncias, a mensagem da Bíblia não soa estranha: “O Deus da paz vos conceda santidade perfeita. Que todo o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!” (O apóstolo Paulo, 1 Tessalonicenses 5.23); “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Jesus Cristo, Lucas 23.46).
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Os onhos como meio de revelação são comuns tanto na cultura guarani quanto na Bíblia.

· Saudações teologicamente ricas são comuns, na cultura guarani, entre pessoas idosas ou líderes religiosos. Despedidas invocam os cuidados de Deus sobre as várias pessoas: “Que Nosso Pai Verdadeira os proteja, os seus filhos, as suas filhas. Que achem tudo o que precisar,” etc. Compare isso com a bênção sacerdotal na Bíblia: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor te mostre a sua face e conceda-te sua graça! O Senhor volva o seu rosto para ti e te dê a paz” (Números 6.24-26).


O dilúvio universal é semelhante nos dois sistemas. O conhecimento guarani do dilúvio predatava a chegada dos europeus (Schaden 1962/74).
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A destruição final do mundo pelo fogo é também proeminente nos dois sistemas.

· A busca pela terra sem males, devida à iminente destruição final, é bem conhecida na religião dos guarani, e historicamente os levava por longas migrações. Em referência ao presente mundo, eles comumente usam a expressão ‘este mundo mau’. A Bíblia emprega termos semelhantes: “Não ameis o mundo, nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procedem do Pai, mas do mundo. O mundo passa com as suas concupiscências, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece eternamente” (1 João 2.15-17). “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos, e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Apocalipse 21.3b-4). É a terra sem males.

· A gratidão a Deus, regularmente oferecida, faz parte dos dois sistemas. Já foi mencionada a correspondência entre a oferta das primícias no Antigo Testamento e o batismo do milho pelos guarani. A ação de graças antes das refeições, ensinada no Novo Testamento, é vista pelos guarani na mesma luz.

· O semi-nomadismo, ou laços fracos para com lugar, é responsável historicamente pela dispersão geográfica atual dos guarani. Neste aspecto, Jesus de Nazaré seria um guarani típico: “As raposas têm covas, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lucas 9.58).

· Os limites do conhecimento humano é testemunhado freqüentemente pelos guarani, quando dizem: “Essas coisas nós não sabemos. Deus sabe.” Na Bíblia, 1 Coríntios 13.12: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.”

· O ascetismo – Numa cartilha de história e geografia que a editora guarani está produzindo, diz assim: “Os antigos sempre diziam que o guarani não deve ficar rico.” O raciocínio é que as riquezas – um excesso de bens em relação às necessidades – são prejudiciais à vida espiritual. Um certo grau de pobreza é um valor cultural por ser uma forma de ascese, no sentido do Dicionário Aurélio: “Exercício prático que leva à efetiva realização da virtude, à plenitude da vida moral”. Os guarani concordam plenamente com as palavras de Jesus: “Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lucas 6.20). O homem moderno concorda?

· O dever de ajudar o próximo está acima da acumulação de bens. Essa realidade às vezes dificulta a vida do guarani, mas ela é real e faz parte importante da cultura. Murphy indica que isso é uma característica geral dos grupos indígenas do país: “interdependência acima de auto-suficiência, comunicentrismo acima de egocentrismo; identidade pelo grupo acima de identidade pelo indivíduo. Valoriza relacionamentos acima de bens” (Murphy 2004). Tudo isso corresponde estreitamente com o ensino bíblico: “Respondeu Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22.37-39).

· A natureza passageira das coisas mundanas é uma crença fundamental entre os guarani, bem como para outros grupos indígenas brasileiros. Para citar Murphy (2004) outra vez: “Essa religiosidade ou espiritualidade indígena é uma cosmovisão que se concentra no mundo invisível do além em contraste com as cosmovisões (materialistas) que se focalizam no mundo visível do aquém.” Na Bíblia, achamos o seguinte: “não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois, as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas” (2 Coríntios 4.18).

Concluimos esta parte examinando a seguinte pergunta: Até que ponto os conceitos bíblicos corres­pon­dem aos conceitos que se encontram na cultura guarani? Porque em qualquer tradução em qualquer cultura, certos conceitos acham correspondência e outros não. Em termos gerais, uma boa parte dos concei­tos precisa corresponder, pois ao contrário, a carga do desconhecido seria tão pesada que o material, uma vez traduzido, seria incompreensível. Mas a questão vai além de uma mera contagem dos conceitos correspon­dentes. A pergunta mais importante seria a seguinte: Os conceitos que têm correspondência com a cultura e os que não têm, tratam de temas centrais ou periféricos na cultura? Se pensarmos sobre os conceitos bíblicos que são alheios à cultura guarani, notamos que eles principalmente tratam de pessoas e costumes de outra cultura, de objetos e animais desconhecidos, de lugares e geografia de outra parte do mundo, de fatos históricos de outrora – em fim, dos fatos do mundo visível. Já os conceitos bíblicos que acham um grau de correspondência com os conhecimentos culturais guarani são, na sua grande maioria, valores e aspectos do mundo invisível, da própria cosmovisão guarani, ou seja, são conceitos culturalmente centrais.

Vamos fazer outra comparação, agora só pensando sobre o mundo invisível. Vamos imaginar um quadro que contém o mundo invisível da Bíblia e o mundo invisível dos guarani. Neste mesmo quadro, vamos colocar também o mundo invisível do homem ocidental moderno (ou pós-moderno). Os três mundos invisíveis ficam dentro do mesmo quadro. Agora, vamos traçar um círculo em volta dos dois que são mais semelhantes entre si. Quais os dois que iríamos agrupar? Qual ficaria fora? Se comparás­semos conceito por conceito e valor por valor – tratamos dos mundos invisíveis, não dos visíveis – eu pessoalmente agruparia o mundo invisível bíblico com o mundo invisível guarani; o mundo invisível moderno, ocidental, científico fica bem longe dos dois. Concordam? Com esta observação, chegamos na questão de legitimidade.

Essa questão é geralmente formulada em termos tais como os seguintes: Seria legítimo traduzir a Bíblia para uma sociedade minoritária, tal como a dos guarani? Alguém teria o direito de fazer isso, ou esse direito não existe? Vamos pensar juntos sobre isso.
Vou abordar a questão em termos de uma teoria de tradução que leva a sério a relação entre a tradução e a sociedade, a Skopostheorie do alemão Hans Vermeer (Vermeer 1989/2000, Nord 1997). Skopos é uma palavra grega que quer dizer ‘finalidade’ ou ‘propósito’; cada tradução tem suas finalidades, seus propósitos, e esses propósitos não existem no ar, pertencem às pessoas. As pessoas que têm esses propósitos são “os clientes” da tradução. Nas situações mais típicas que Vermeer trata, os clientes comissionam uma tradução, contratando um tradutor para executá-la. A tradução para uma sociedade minoritária é mais complexa. Comumente existem clientes de vários tipos, que têm interesses diversos para com a tradução: o próprio tradutor ou os tradutores, pessoas ou organizações que patrocinam a tradução, uma editora com interesse em publicá-la, indivíduos ou grupos dentro da sociedade receptora, e outras pessoas interessadas. Esses clientes podem ser categorizados conforme dois parâmetros: o tipo de interesse que eles têm para com a tradução, e a sua relação com a sociedade receptora. Interesse comercial não existe numa tradução em língua indígena brasileira; qualquer tradução dessas é muito dispendiosa. Penso em dois tipos de interesse: positivo e negativo, as pessoas que são a favor da tradução e as que são contra. Pessoas que não se manifestam, não funcionam como clientes. Em relação à sociedade receptora, existem clientes internos (os que pertecem à sociedade receptora) e externos (os que não pertencem). Então, uma tradução poderia ter clientes internos positivos, internos negativos, externos positivos e externos negativos. Outros parâmetros seriam possíveis também, por exemplo, o tipo de ação que um cliente toma: um cliente positivo pode tentar impor uma tradução na sociedade receptora, um cliente negativo pode tentar proibir a tradução, ou influenciar a opinião através da mídia, e assim por diante. Outro parâmetro possível seria a motivação pela qual um cliente apoia a tradução ou se apresenta em oposição a ela. Mas para começarmos a pensar, irão servir esses dois parâmetros mencionados: o tipo de interesse que o cliente tem e sua relação com a sociedade receptora.
Em relação à questão de legitimidade, a minha tese é a seguinte: os clientes mais legítimos são os internos, os próprios membros da sociedade receptora, sejam eles clientes positivos ou negativos.

Esta tese pressupõe que os membros da sociedade receptora exerçam uma escolha efetiva. Para a tradução da Bíblia ou de qualquer outra obra para uma sociedade indígena brasileira, esse pressuposto vigora apenas em parte. Se um grupo indígena quer ter uma tradução, isso não garante que ele chegará a tê-la, porque para se fazer uma tradução qualquer nessas línguas, quanto mais uma tradução bíblica, o investimento seria enorme. Se a tradução for feita por um membro do grupo, ele teria que ter a formação adequada, o tempo disponível e o sustento necessário; se a tradução for feita por um não-membro do grupo, ele teria que ter tempo, condições e sustento, inicialmente só para aprender a língua, e depois para realizar a tradução. Então, um cliente interno positivo, nem sempre teria uma escolha efetiva.

Mas se um grupo indígena se posicionar como cliente interno negativo, a escolha seria efetiva, sim, pois não haverá condições de se realizar a tradução, nem por membros do grupo, nem por pessoas de fora. A tradução bíblica leva tanto tempo e requer tanto contato que ninguém conseguiria êxito nela, sem o aval da sociedade receptora. Na organização da qual eu sou membro, a Sociedade Internacional de Lingüística, também conhecida por SIL, Instituto Lingüístico, ou Summer, houve casos onde uma tradução não foi realizada justamente pela falta de clientes internos positivos. Se uma pessoa conseguir fazer uma tradução à distância, provavelmente ela não seria compreensível, e mesmo se fosse, poderia ainda ser facilmente rejeitada pela sociedade receptora. Uma tradução ou qualquer outro documento escrito é diferente da construção de uma escola, digamos, ou um centro de saúde, no sentido de que um livro não pode ser imposto (a não ser que ele seja adotado como livro-texto numa escola ou, do outro lado, proibido). Por que não pode ser imposto? Porque quem não quer ler o livro, efetivamente barra a porta contra ele. Não se pode forçar uma pessoa a ler. Para a tradução, a escolha negativa existe.

A mera existência de clientes externos é um fato interessante. Vamos supor que eu e vocês, membros de uma sociedade A, temos interesse, por qualquer motivo, na possibilidade ou não de uma sociedade B receber uma tradução. Para fazer o exemplo mais concreto, eu sou um cliente externo positivo, no sentido que fui ao encontro do grupo, propus a tradução, a proposta foi aceita e realizada. Do outro lado, poderiam ter pessoas aqui ou em outro lugar que são clientes externos negativos, por qualquer razão. Tudo bem. Como clientes externos, a minha tese é que os nossos propósitos devem ser submetidos aos critérios dos clientes internos. Porque nós, da grande sociedade A, não somos os donos das pequenas sociedades B (B1, B2, B3, etc.).

Existem lugares com sociedades minoritárias, mas sem clientes externos negativos em relação à tradução bíblica. Neste ano passei dois meses com tradutores africanos no país de Moçambique. No Brasil, menos de 1% da população fala uma língua indígena, e o resto da população pertence à sociedade majoritária A. Em Moçambique, é o contrário: 98% da população é falante nativo de uma das 25 línguas bantu do país. A população é quase completamente composta desses grupos B1, B2, etc.; não existe sociedade majoritária A para mandar ou opinar. Durante muitos anos o Portugual, como país colonizador, funcionava como essa sociedade A; naquela época, alguns destes grupos B receberam a Bíblia na sua língua, traduzida pela igreja católica. Nos tempos pós-coloniais, tradutores evangélicos ou protestantes começaram a traduzir também. O que nos interesse agora é que, em contraste com o Brasil, a questão de legitimidade em Moçambique rara­mente ou nunca se levantou. Por quê? Porque essa questão é principalmente dos clientes negativos externos, que pertencem à grande sociedade A: nos tempos coloniais, não havia oposição dentro da sociedade A; depois, essa sociedade A não existe mais.

Vamos formular a questão de legitimidade de outra maneira: Seria legítimo os membros de uma sociedade B permitir a tradução da Bíblia na sua língua? Se esta forma da pergunta soa estranha, é porque esta vez é formulada em termos dos clientes internos em vez dos clientes externos. A minha tese é que esta é a forma mais legítima da questão. Não é que nós, como membros de uma sociedade A, não tenhamos direito à opinião; é claro que temos. Uma pessoa poderia alegar que a tradução bíblica muda culturas, e não deve ser permitida em sociedades minoritárias. Outra pessoa poderia responder que toda tradução, e todo contato com elementos alheios, muda as culturas. Não sei se a questão de legitimidade é levantada dessa forma em relação às sociedades majoritárias. Se ela não for, pode se perguntar por quê então é levantada em relação às sociedades minoritárias? Existem critérios diferentes para os dois tipos de sociedade? A Bíblia teria menos potencial para mudar uma sociedade majoritária? Seus conceitos estão mais longe da cosmovisão de sociedades minoritárias? Perguntas assim poderiam, e eu acredito que devem, ser debatidas. Mas sejam quais forem as nossas respostas a indagações como essas, na questão de legitimidade as nossas respostas são de relevância secundária, porque a questão precisa ser submetida, em primeiro lugar, ao tribunal da sociedade receptora. Na questão de legitimidade, o legítimo seria o que a sociedade receptora determinar; o ilegítimo seria qualquer ato de imposição ou proibição de fora.
 

Em resumo, esta palestra tinha dois objetivos. Primeiro, eu indiquei várias maneiras nas quais a tradução bíblica na sociedade minoritária dos guarani mbyá funciona como geradora e produto da cultura, exatamente como outros tipos de tradução funcionam em outras sociedades. Nessa investigação fizemos a observação, de passagem, de que a tradução bíblica apresenta afinidades mais profundas com a cosmovisão indígena do que com as ideologias do homem moderno. Segundo, em relação à questão de legitimidade – a indagação se uma certa tradução deve ser feita ou não para uma determinada comunidade – eu propus a tese, dentro da Skopostheorie de Hans Vermeer, de que é bom deixarmos essa questão ao critério dos clientes internos, que são membros da sociedade receptora. Acredito que, para uma boa parte das traduções sendo contempladas nos trabalhos desta semana, são os clientes internos, dentro da comunidade receptora, que determinam se a tradução deve ser feita ou não. Talvez essa questão nem tenha se levantado; são poucas as traduções impostas ou proibidas por clientes externos. Neste ponto também, portanto, a minha colocação não traz novidades. Notamos mais uma observação, em relação à questão de legitimidade, de que uma sociedade minoritária, como a dos guarani, realmente exerce uma escolha negativa efetiva: uma tradução só chega a ser geradora da cultura à medida que seja um produto dela, no sentido de ser aceita pela população receptora.

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Última atualização em Qui, 02 de Abril de 2009 17:38

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