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Etnoteologia

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Esta matéria é um esforço de interpretação antropológica e teológica da sociedade moderna, trazendo através do conceito da Etnoteologia, a expressão da teologia num contexto cultural. A interpretação e estudos aqui desenvolvidos penetram nos valores culturais e no chamado bíblico a um estilo de vida superior aos padrões do mundo e da modernidade. Nosso objetivo é apresentar a cultura do reino de Deus como um caminho superior e mais excelente, relevante para todas as culturas; e convocar os discípulos de Cristo, desta sociedade moderna, envolvidos por fatores antropológicos diversos a viverem a Cultura do Reino, cultura própria daqueles que são filhos de Deus.

ETNOTEOLOGIA E ANTROPOLOGIA CULTURAL

Ao abraçar os fundamentos da Antropologia, estaremos nos detendo em uma de suas importantes ramificações, a Antropologia da Religião, visto que a religião é um componente da cultura de suma importância. A religião e cultura estão intimamente ligadas entre si. Estaremos abordando os domínios da Antropologia e os da Teologia, detendo especificamente no campo da Etnoteologia, sendo este o ponto de junção, “interjeição” entre as duas ciências, a Antropologia e a Teologia. Paralelamente à delimitação dos domínios, definição e fundamentação estaremos trazendo uma compreensão e fixação nítida da Antropologia Cultural, permitindo-se assim uma visualização da sublime importância da cultura.

Os conceitos antropológicos são muito amplos, e vários os ramos da antropologia, mas para este estudo da Etnoteologia e Antropologia Cultural estaremos dando uma fundamentação em sete ramos e conceitos concernentes à defesa da etnoteologia.

1. O que é cultura?

A cultura é o conjunto de comportamento, de valores e das crenças culturais de uma sociedade. “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modo de organização econômica, padrões de estabelecimento, de agrupamento social e organização política, crenças e práticas religiosas, e assim por diante”. (1) “A cultura é um modo de pensar, de sentir, de crer”. (2) Os importantes elementos de uma cultura são os valores, conhecimento, a crença, arte, moral, alimentação, língua, leis, costumes e quaisquer hábitos e habilidades adquiridos pelo homem dentro da sociedade.

O estudo da antropologia delineia esta compreensão, de uma forma comparativa ao das “cascas”, como as cascas de uma cebola, mostrando vários níveis de entendimento. São quatro estas “cascas” de uma cultura:

A) O comportamento do povo - esta é a casca mais externa, superficial, e a mais fácil de ser notada quando avaliamos uma cultura. É o conjunto das coisas que são feitas, daquilo que são facilmente notadas como ato de fazer de um povo, e como eles fazem estas coisas. Esta identificação pode ser vista no modo de agir, vestir, caminhar, comer, falar, etc.

B) Os valores culturais de um povo - penetrando uma camada à dentro veremos os valores culturais, e estes valores são firmados sobre a sua noção daquilo que é “bom”, do que é “benéfico”, e do que é “melhor”. Os valores culturais são para adequarem ou conformarem o padrão de vida de um povo.

C) As crenças - a crença é a noção que se tem daquilo que é verdadeiro. Constitui-se da crença básica de um povo, no que este povo vê como verdade fundamental.

D) A cosmovisão - cultura é como uma lente através do qual o homem vê o mundo. É a percepção daquilo que é real, e qual é a realidade do mundo. É o modo de ver o mundo, é o sistema de crença que reflete os comportamentos e valores de um povo.
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(1) KEESING, Roger. Theories of Culture, Vol.3. California: Palo Alto. 1974.
(2) KLUCKHOHN, Clyde. Mirror for Man. Nova Iorque: Whittlesev, 1949. p. 23.

2. Antropologia.

As ciências humanas, ciências do comportamento humano, foram divididas em três ramos: sociologia, psicologia e antropologia. A sociologia detém ao estudo das relações sociais que envolvem o homem como um ser social. A psicologia estuda o homem como um indivíduo, analisando sua personalidade, atitudes e comportamentos.

A antropologia por sua vez compartilha as áreas da sociologia e da psicologia. É a ciência que estuda o homem como ser biológico, sociológico e psicológico, e através de um método comparativo estuda o homem através do tempo e da cultura. O alvo da antropologia é a total compreensão do homem, e para isto estuda tudo concernente ao homem.

Antropologia é a doutrina do homem, e este termo é usado tanto na teologia como na ciência, sendo que a Teologia Antropológica estuda o homem em relação a Deus ao passo que a antropologia científica estuda seu organismo pisico-físico e a história natural. A teologia antropológica traz a doutrina do homem abrangendo: a criação e origem do homem, a natureza do homem, a unidade e constituição do homem, a queda do homem e pecado.

A maneira como uma sociedade compreende a criação e origem do homem, será um fator determinante para o relacionamento com Deus, bem como a noção da presença de Deus será cultivada na vida do povo. A expressão religiosa de um povo revela sua identidade teológica e sua crença básica.

3. Antropologia Cultural

Sendo “cultura um sistema integrado de comportamento e valores aprendidos como característica de membros de uma sociedade”(1), a antropologia cultural analisa o sistema como um todo e como as partes e funções interagem neste todo, e como os sistemas se relacionam. A antropologia cultural vem a ser uma ciência comparativa da cultura de um povo e traz uma compreensão cultural deste povo. A antropologia cultural estuda o homem integrado em seu contexto social, psicológico, biológico, físico e teológico, apreciando o seu comportamento, valores, hábitos, língua e crença. O conceito chave da Antropologia Cultural é a cultura, mostrando a sua beleza, singeleza, simplicidade, complexidade e arquitetura relacional.

A antropologia cultural é o espelho do homem refletido na sociedade; ela apanha todo o sistema de valores, de comportamento, de atitudes e expressões e reflete tudo isto numa expressão cultural distinta. Ela é o palco de “performance” do homem.

4. Antropologia da Religião

É o ramo da antropologia que dedicado ao estudo das crenças religiosas do povo. A religião é a maior expressão da crença de um povo. A religião é uma das instituições sociais universal em todas as culturas. Toda sociedade conhecida pratica alguma forma de religião. A palavra religião vem do latim, e que dizer “religar”, dando a idéia de laço, aliança, pacto. Religião é a ligação do homem com Deus. Para a antropologia, “religião, são todas as crenças e práticas em forma de doutrinas e rituais de uma religião” (2).

A antropologia apresenta seis funções da religião na cultura:

A) Psicológica - pois provê apoio, consolação e reconciliação. A religião provê suporte emocional para vencer, capacita o homem a um relacionamento com Deus e os demais.

B) Trasncendental - provê segurança e direção. A religião faz provisão de absoluto ponto de referência no qual o homem pode adequar-se a um mundo de constante mudança.

C) Sacralização - ela vem legitimar de normas e valores. Leva o indivíduo a fazer parte de alvo social comum e torna legítimos os alvos de um grupo e os significados de alcançar estes alvos. Ela age numa sociedade, levando-a a legitimar e justificar a sua organização, sua maneira de ser e de fazer.

D) Profética - critica normas e valores. Assim como a religião regulamenta normas e valores, ela condena aquelas normas e valores que não são corretos.

E) Identificação - a religião nos diz quem somos e nos traz identidade. “Religião proporciona o senso individual de identidade, desde o distante passado ao ilimitado futuro. Este indivíduo expande seu ego ao fazer seu espírito significante para o universo e o universo significante para ele. Desta forma a religião contribui para a integração da personalidade”. (3)

F) Maturação - ela marca a passagem de um indivíduo pela sua vida na sociedade. Desce que a vida é sagrada e relacionada ao supernatural, esta função marca os estágios da vida, e expressa através dos ritos de passagem. Ela marca e ajuda fixar momentos importantes na vida do indivíduo, tais como: nascimento, batismo, noivado, casamento, funeral, etc. Legitima rituais para marcar entradas e saídas do universo da vida.

Um antropológico estudo das religiões comparativas mostra que todas as religiões apresentam as mesmas funções culturais. Como todo homem apresenta as mesmas necessidades, cada sistema cultural e religioso traça um caminho para o homem satisfazer estas necessidades comuns e básicas a todos os indivíduos.

A relação entre teologia e religião é a seguinte: teologia é a idéia, o pensamento, o conhecimento que o homem tem acerca de Deus e a religião é prática, nela o homem se expressa em atitudes, ações e hábitos o que este conhecimento de Deus produziu nele. Religião vem a ser a expressão da crença. Mas, nem todas as religiões são fundamentadas em uma teologia bíblica. Há muitas expressões religiosas, e do ponto de vista antropológico cultural, todas as religiões são aceitas, mas a realidade crucial é o fato se estas religiões preenchem o padrão bíblico.
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(1) GRUNHAN, Stephen A. Cultural Anthropology – a Christian Perspective. Michigan: Academie Books. 1979. p. 234.
(2) Id. Ibid., p. 236.
(3) GRUNHAN, Stephen A. Cult. Anthr. Christian Perspec. p. 239.

5. Campos da Teologia

Teologia é o estudo de Deus. A Bíblia é um documentário histórico da revelação de Deus aos homens, e Teologia é uma explicação sistemática e histórica das verdades da Bíblia. Teologia é a ciência que estuda a Deus e a todas as outras doutrinas cristãs que se referem o relacionamento de Deus com o universo e o homem, estuda os fatos relacionados com Deus e as coisas de Deus.

O campo da teologia é normalmente dividida em quatro partes:
Teologia Exegética, Teologia Histórica, Teologia Sistemática, Teologia Prática. Estaremos definindo a área de atuação de cada um destes campos da Teologia.

A) Teologia Exegética:

A exegese se ocupa diretamente ao estudo do Texto Sagrado, é a explicação, interpretação e comentário para esclarecimento, especialmente dos textos bíblicos. A exegese procura descobrir o verdadeiro significado das escrituras. Exegética vem do grego que significa “sacar” ou “extrair” a verdade. Ela busca as bases para orientação, ilustração e interpretação daquele texto. Inclui em seus estudo: as línguas originais da Bíblia, a Arqueologia Bíblica, a Hermenêutica Bíblica e Teologia Bíblica. A exegese é o pano de fundo dos contextos onde a Verdade é revelada. Os princípios de hermenêutica são fundamentais para a exegese.
Hermenêutica é a ciência de interpretação da Bíblia. Uma das regras básicas na hermenêutica, é o princípio de interpretar determinada passagem na luz da cultura em que foi escrita. A palavra hermenêutica quer dizer explicar ou interpretar. O papel fundamental do olhar exegético é buscar a significação – qual é o significado do texto. Para entender esta significação é preciso compreender as ferramentas da hermenêutica, o assunto do texto, o significado, as implicações, o gênero literário, normas de linguagem, o contexto, e a cultura local. E a partir daí, partir para a compreensão e interpretação.

B) Teologia Histórica:

Ela se ocupa com a origem, desenvolvimento e dispersão da verdadeira religião, das doutrinas, das organizações e práticas doutrinárias. Ela traça a história do povo de Deus através da Bíblia e da igreja desde a época de Cristo. São sua área de expressão: História Bíblica, História da Igreja, História da Doutrina e a História dos Credos e Confissões.

C) Teologia Sistemática:

Ela se ocupa numa exposição e explicação sistemática das verdades bíblicas. Ela expõe os fundamentos bíblicos, em ordem sistemática. Ela trata das doutrinas da Bíblia, dos fundamentos bíblicos. Ela apresenta a doutrina cristã. Doutrina significa “ensino”, instrução. São as verdades fundamentais da Bíblia, dispostas em forma sistemática.
A defesa central da Teologia Sistemática está nestes dez assuntos: A Bibliologia – doutrina da Bíblia, a Teologia – doutrina de Deus, Cristologia – a pessoa de Jesus Cristo, Soteriologia – doutrina da salvação, Pneumatologia – doutrina do Espírito Santo, Antropologia – doutrina do homem, Hamartilogia – doutrina do pecado, Eclesiologia – doutrina da Igreja, Angeologia – doutrina dos anjos, Escatologia – doutrina das últimas coisas. É sistemática no sentido de estar a matéria agrupada segundo uma ordem definida.
A Apologética é uma importantíssima ciência entrelaçada à teologia sistemática. Apologética é a defesa da fé. Vem da raiz da palavra “apologia”, que quer dizer, discurso ou escrito para justificar ou defender.

D) Teologia Prática:

Ela trata da aplicação da teologia na regeneração, santificação, edificação, educação e serviço cristão. São matérias da Teologia Prática: Homilética, Administração Eclesiástica, Educação Cristã, Missões.

6. Etnologia

O objetivo da etnologia é o estudo diferencial das culturas dos diversos grupos étnicos e, especialmente, das sociedades de tecnologia tradicional, revelando as variedades consideráveis dos comportamentos e dos sistemas de valores. A etnologia fornece uma messe de dados documentários, para que através de um método comparativo transcultural, mantêm-se constantes as variações individuais, mas fazendo variar a norma social. A interjeição entre a etnologia e a teologia, é que esta troca essencial fornece uma gama de dados documentários à teologia, para que esta assuma sua posição supra-cultural. A etnografia faz um estudo descritivo das sociedades humanas, e a etnologia é o estudo comparativo das sociedades humanas em suas diferentes culturas.

7. Etnoteologia

Etnoteologia é uma nova área de estudo está sendo desenvolvida e está relacionada com a apresentação do evangelho e os modelos culturais relevantes na cultura receptora. “Etnoteologia é a disciplina concernente a de-culturalização (separação da cultura) e contextetualização da teologia” (1). Cada cristão aprende sua teologia num conjunto cultural e logo começa a ver seu comportamento como um “comportamento cristão”.

Etnoteologia é a ciência de interjeição entre a Antropologia Cultural e a Teologia, fazendo um estudo comparativo da crença de um povo em Deus. Ela apresenta a cultura de Deus (do reino de Deus) com o desenvolvimento da cultura local, surgindo assim a “contracultura cristã”, cultura e crença religiosa proposta por Deus e que está a cima de qualquer evolução e variação cultural.

A ANTROPOLOGIA E A BÍBLIA

A Bíblia é a única Regra de Fé e Prática, e a única fonte de confiança do cristão. A veracidade e autoridade final da Bíblia sobrepõe a todas outras ciências e argumentos.

A Bíblia é o mapa cultural do povo de Deus, nela está contido o ensino de toda teologia bem como os padrões culturais e comportamento aplicáveis ao povo de Deus. A Bíblia é manual teológico e antropológico para um povo adorador do Deus único e verdadeiro. Deus criou e formou o homem, sabendo assim o que é melhor para a sua existência e perfeita harmonia aqui na terra.

1. A veracidade e autoridade da Bíblia

A única fonte fidedigna que temos sobre Deus e as coisas relacionadas a Ele, é a Bíblia. “Logos” palavra grega que significa “palavra”. Jesus Cristo é a Palavra Viva de Deus, e a Bíblia é a Palavra escrita de Deus. Logo, ambos são o “Logos de Deus”.
A Bíblia se distingue de todos os demais livros porque ela é a revelação divina, possui inspiração divina e tem autoridade divina. Deus se revelou a si mesmo na Bíblia. Ela é a revelação de Deus mesmo. Ela é totalmente inspirada por Deus ( II Tm.3:16) e é de comprovada autoridade. A revelação que a Bíblia apresenta de Deus, é uma revelação sobrenatural.

Revelação divina, é Deus comunicando a verdade para o homem, e inspiração divina é a influência divina que garante a transferência fiel daquela verdade revelada. Jesus Cristo é a palavra revelada e encarnada de Deus. Jesus comprovou a autoridade das Escrituras, Ele falava com autoridade, e Suas palavras eram “espírito e vida”.

Sua existência ultrapassa vinte séculos, e ela tem sido usado como o livro de teologia e doutrina através destes séculos. Através da Bíblia, teologias e fundamentos doutrinários tem sido formuladose apresentado para a Igreja – o corpo de Cristo, como a verdade final. A Bíblia não contem a palavra de Deus, ela é toda e totalmente, a palavra infalível de Deus. Foi escrita por vários autores inspirados pelo próprio Deus. É composta por 66 livros, sendo 39 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. A Bíblia Sagrada é o standard (padrão) pela qual medimos toda a verdade e justiça, toda a teologia e moral. Ela é a autoridade máxima neste estudo etnoteológico.

2. A Antropologia e a Bíblia

Antropologia é o estudo do homem e qualquer estudo do homem deveria começar na sua origem e propósito de criação e existência. A Antropologia Cultural confere ao estudante da Bíblia conceitos e ferramentas para compreender a cultura em que a Bíblia foi escrita e consequentemente entender melhor a passagem bíblica.

Uma perspectiva transcultural permite-nos olhar para outro povo e grupo social e ver sua validade. A antropologia nos fornece também o conceito de funcionalismo, particularmente aplicado à criação e sua perspectiva funcional, onde os vários aspectos da sociedade são funcionais e as regras dadas por Deus são para garantir e regular o funcionamento de todos os aspectos sociais. Uma perspectiva antropológica nos permite entender o relativismo da cultura e reforçar a absolutista teologia bíblica. Os aspectos sócio culturais podem variar, mas o conceito teológico não.

No campo da etnoteologia, a antropologia cultural ajuda-nos a estabelecer uma teologia verdadeira intercultural e totalmente relevante à cultura local, fornecendo ferramentas para a contextualização da mensagem. Este estudo da etnologia mostra que a Bíblia é sagrada e infalível, mas a transmissão da mensagem está atada à cultura. Um “insight” antropológico permite ver a importância da relevância, onde a verdade precisa ser relevante para a cultura local e a escritura deve ser entendida no contexto de sua própria cultura. A antropologia permite-nos também estudar a diferença entre FORMA e SIGNIFICADO, donde as formas culturais apresentadas na escritura não são sagradas, mas os seus significados são sagrados.

Verdadeiramente todas as culturas e expressões culturais são relativas, mas os teólogos precisam descobrir para a teologia intercultural os significados que são valores absolutos que são apresentados na Bíblia. É preciso então distinguir o que é uma verdade bíblica absoluta, e o que é um aspecto cultural expresso na passagem bíblica.

3. Cosmovisão e Contextualização

Cosmovisão é a maneira pela qual as pessoas vêm ou percebem o mundo, a maneira pela qual elas entendem o mundo ao seu redor e percebem sua participação e localização neste mundo. É a compreensão pessoal da realidade ao redor e do que elas são.

“Cosmovisão pode ser usada para incluir as formas de pensamento e as mais compreensivas atitudes a cerca da vida. A cosmovisão pode dificilmente ser considerada sem alguma dimensão de tempo, alguma idéia do passado e do futuro, evoca o conjunto emocional de um povo para demonstrar sua disposição para ser ativo ou contemplativo, ou resignados para sentir eles mesmos a partir do que eles vêm ou para intimamente identificar a si próprios no resto do mundo (cosmos). É a estrutura das coisas e como o homem está ciente delas. Ela é a maneira pela qual vemos a nós mesmos e nos relacionamos com o resto” (1).

Na cosmovisão animista a visão é que a terra é governada por espíritos, e devido à esta percepção do mundo tudo é regulado por esta crença, a plantação, a colheita, a arquitetura de suas casas, os rituais, a religião, as festas e os modos de expulsar os maus espíritos. Na cosmovisão Hindú, a vida não está num tempo linear começando com o nascimento e terminando com a morte, mas num tempo circular, onde os indivíduos renascem centenas e milhares de vezes. Para eles, a morte é apenas um ponto de reiniciar o processo circular da vida, visto que irá nascer e começar outras vezes. Na cosmovisão espírita, a reencarnação e contato com os mortos e espíritos é algo natural. Na cosmovisão católica romana, Maria é a personagem principal no cristianismo e a que assume a memória cultural constantemente. Na cosmovisão humanística, o homem é o centro de todo saber e de todas as coisas. Na cosmovisão islâmica, ocorre uma substituição das idéias do cristianismo, onde Maomé é a autoridade máxima, o alcorão o livro de regras, fé e prática, e Deus um juiz impessoal que julgará sem dó alguma.

Entender a cosmovisão é o ponto de partida para estabelecerr uma ponte naquela cultura pessoal e naquela mentalidade formada, a verdade transcultural do evangelho de Cristo. A cosmovisão de um povo reflete as suas suposições, valores e entendimento a respeito da vida e do mundo onde eles vivem. Por isto é necessário participar da vida e das experiências de um povo com entendimento para entender esta sua cosmovisão. Quando a conhecemos bem, temos credibilidade e autoridade para apresentar o evangelho nesta sua localização cultural. A mensagem da fé cristã é indiscutivelmente universal e destinada a todos os homens de todas as épocas e de todas as culturas, mas os contextos culturais em que Deus estabeleceu a verdade e a cultura onde esta verdade está sendo comunicada são bem distintos. Daí, a necessidade de uma contextualização, ou seja a de apresentar a mensagem ajustavel ao “ponto de vista”, contexto e estilo cultural local. O conteúdo contextualizado deve ser acompanhado de um estilo de transmissão contextualizado, através de uma comunicação contextualizada. O povo precisa entender, visualizar, aceitar e encarnar a verdade ora comunicada.

A Comunicação Transcultural vem pois a ser, uma comunicação contextualizada, onde é necessário ter os conhecimentos da antropologia cultural para entender a cultura e a cosmovisão de um povo. O modelo ideal da comunicação transcultural do evangelho, é o modelo encarnacional, onde o missionário cristão passa pelo processo de adaptação e aculturação à nova cultura, e se interage na cultura estabelecendo o senso de pertencer, e neste modelo encarnacional, ele faz amigos nesta nova cultura, vive com o povo, comunica na linguagem do amor, e contextualizada a mensagem para o povo. O missionário aprende a cultura local, a língua falada bem como a língua silenciosa, os hábitos e valores que constituem a soma daquela cultura. Ele, literalmente, “veste a camisa” daquele povo, e se torna um deles. Sua mensagem então é revestida de autoridade, pois não se trata de uma verdade “estrangeira”, mas de uma pessoa de dentro da cultura, uma pessoa parte da vida deles.

“Vá ao povo; viva entre as pessoas. Ame-as.
Comece pelo que sabem. Construa com o que têm.
E quando os melhores líderes surgirem, as pessoas dirão:
“fomos nós mesmos que fizemos isto.”
Robert C. Linthincum.

4. Teologia Transcultural

Temos visto como que as diferenças culturais influenciam a mensagem quando esta é apresentada nas formas de uma nova cultura. Mas o que ocorre com a teologia? O que acontece quando a Bíblia é vista sob os olhos de uma outra cultura? Quando uma igreja é implantada numa nova cultura, após algumas gerações, líderes locais começarão a analisar como que o evangelho se relaciona com suas tradições culturais. O surgimento da Teologia Latino-americana, da Teologia Africana e da Teologia Indiana, veio em reposta á pergunta: como eles podem expressar as Boas Novas para a total compreensão do povo, e contudo preservar a mensagem verdadeira?

É preciso compreendermos a diferença entre Bíblia e teologia. A Bíblia é um documento histórico da revelação de Deus ao homem, e teologia é uma explicação sistemática e histórica das verdades da Bíblia. Na formulação das teologias, vemos que elas são influenciadas pela cultura. Todas as teologias desenvolvidas pelo homem são formadas por seus particulares histórico e contexto cultural, pela língua que usam e pelo questionamento que fazem.

Existem dois tipos de teologia. Uma examina as estruturas básicas subordinada às realidades. Ela questiona acerca da natureza de Deus, do mundo, do homem, pecado, salvação, etc. Esta tem a ver com a estrutura da verdade. O outro tipo de teologia está interessada na “história” da realidade. Ela questiona as origens, propósitos e destino do universo. Esta tem a ver com a função e com a história, com o contexto onde a verdade é apresentada.

Um dos conceitos cruciais na teologia cristã, é o conceito de Deus. É preciso entender qual é o conceito que determinado povo tem de Deus, afim de traçar uma teologia bíblica, convergindo a idéia que este povo tem de Deus para o Deus criador e senhor de todas as coisas, revelado na Bíblia. Daí a necessidade de desenvolver uma teologia que faça o evangelho claro em diferentes culturas. Neste campo surge o conceito da teologia transcultural, que transcende todas as diferenças culturais, a “metateologia” que compara as teologias, explora as parcialidades culturais de cada e busca encontrar as bases bíblicas universais.
Paul Hiebert em seu livro Anthropological Insights for Missionaries (pag.217-221) apresenta as características básicas de uma Teologia

Transcultural que são:

A) Base Bíblica: como as teologias contextualizadas, a teologia transcultural tem que ser fundamentada na Bíblia. A Bíblia é o standard (padrão) pelo qual as teologias são medidas mediante a revelação bíblica.

B) Supracultural: a teologia transcultural precisa buscar transcender os limites das particuliaridades das culturas humanas, mas precisa ser expressa em linguagem que são moldada especificamente por alguns ambientes culturais. Na realidade, as culturas não são totalmente diferentes umas das outras. Existem raízes fundamentais semelhantes em todas as culturas. Existem pontes culturais comuns entre as diferentes culturas.

C) Histórica e Cristológica: a teologia transcultural precisa focalizar a ação de Deus na história, e no centro desta história que Cristo é levantado. Jesus Cristo é o centro da história e revelação Bíblica. A Bíblia nos dá detalhe da vida e missão de Cristo que transcende a todas as culturas humanas, e qualquer teologia transcultural deve ter Cristo na sua posição central. O padrão cristocêntrico apresenta a singularidade do evangelho, Cristo como o único caminho para Deus; e a verdade do evangelho – Jesus é a verdade e é verdadeiramente o Filho de Deus .

D) Guiada pela Espírito: a unidade da teologia transcultural precisa depender da obra do Espírito Santo. É Ele quem nos guia a todo o conhecimento da verdade

A teologia contextualizada, apresenta a teologia em uma mensagem contextualizada para um povo específico, mas a teologia transcultural liga todas as culturas em uma dimensão além de sua percepção local. Ela é contextualizada a nível de recepção da Verdade, mas é transcultural porque a mesma Verdade é compartilhada a todos os povos, línguas, tribos e nações, constituindo uma família universal de Deus. A Verdade de Deus transcende os limites de uma cultura local, e ata todas as culturas em fé e adoração ao Deus vivo e verdadeiro.

Discussão e Conclusão

A idéia da etnoteologia surgiu de estudos que mostravam a religião como um importante e forte componente cultural. Experiências mostram que a teologia não é uma caixa pronta a ser encaixada em todas as culturas, mas que diferentes culturas poderiam receber a mensagem fundamental e universal da Bíblia em modelos culturais relevantes para si. O pressuposto é que etnoteologia é um ponto de junção entre a teologia e a cultura, e exploramos então. A idéia que diferentes culturas tem de Deus, e como elas respondem à teologia cristã.

Apresentamos então a Bíblia como o mapa cultural do povo de Deus, como o mapa teológico e antropológico para o estudo da etnoteologia, sendo a teologia uma explicação sistemática das verdades bíblicas. O pressuposto bíblico é que nem todos os caminhos conduzem a Deus, pois a Bíblia é Cristocêntrica, e só Jesus Cristo é o caminho para Deus. Estas verdades bíblicas fundamentais precisam ser contextualizadas de acordo com a cosmovisão de um povo, de forma que esta verdade fundamental seja encaixada, não como numa forma, mas numa expressão cultural diferente. O conteúdo da contextualização e o estilo de comunicação da mensagem contextualizada são importantes para o povo entender, visualizar, aceitar a verdade ora comunicada.

Mas além de contextualizar a mensagem para a compreensão e aceitação das diferentes culturas, é necessário que esta etnoteologia seja de fato transcultural, levando o povo à conscientização de que esta verdade fundamental é também universal. A teologia contextualizada, de fato, apresenta a teologia ao povo em uma mensagem contextualizada, mas a teologia transcultural liga todas as culturas em uma dimensão além de sua cultura e percepção local.

Concluímos, pois, que etnoteologicamente correto, a proposta é uma Teologia transcultural contextualizada aos diversos grupos étnicos, conduzindo cada povo (grupo étnico) a uma adoração e fé viva ao único Deus vivo e verdadeiro, e a Jesus Cristo o filho de Deus Pai a quem Deus enviou ao mundo para resgatar o homem, e ao Espírito Santo presente e atuante para convencer o homem na revelação pessoal de Jesus Cristo.

Partindo do campo da Antropologia entramos no campo da Teologia, que é o estudo de Deus, sendo a Bíblia um documentário histórico da revelação de Deus aos homens. Teologia é a idéia, o pensamento, o conhecimento que o homem tem acerca de Deus, e a religião é a prática, nela o homem expressa em atitudes, ações e hábitos o que esse conhecimento de Deus produziu nele. Cada sistema cultural e religioso traça um caminho para o homem expressar sua crença e prática religiosa.

Na Etnoteologia vemos que cada cristão aprende sua teologia num conjunto cultural e seu comportamento para a ser visto como um comportamento cristão. A Bíblia é o mapa cultural e teológico do povo de Deus e nela está contido o ensino de toda a teologia, padrões culturais e comportamento aplicável ao povo de Deus. Ela é um manual teológico e antropológico aos adoradores do único Deus vivo e verdadeiro. Uma perspectiva transcultural permite-nos olhar para outro povo e grupo social e ver a sua validade e que os aspectos sócio-culturais podem variar, mas não o conceito teológico.

No campo da Etnoteologia, a Antropologia Cultural ajuda-nos a estabelecer uma teologia verdadeira, intercultural e totalmente relevante à uma cultura local, propiciando a contextualização da mensagem. É preciso compreender a comosvisão de um povo e distinguir perfeitamente o que é uma verdade bíblica absoluta e o que é um aspecto cultural que pode ser contextualizado à realidade do povo local. Na comunicação transcultural é necessário a contextualização da mensagem para sua compreensão e aceitação nas diferentes culturas, e seja de fato transcultural, levando o povo à conscientização que a verdade bíblica fundamental e absoluta é também universal.

É Etnoteologicamente correto apresentar uma teologia transcultural contextualizada aos diversos grupos étnicos, apontando para o povo de Deus Soberano, criador dos céus e da terra, criador do homem, quem formou os Seus valores e conceitos no homem. Surge neste panorama bíblico a cultura e Teologia do povo de Deus, visto que Deus plantou o homem em sociedade de relacionamentos e um ambiente cultural específico. Na teologia bíblica deparamos com o fator supracultural, onde o reino de Deus se sobrepõe à cultura dos homens, sendo, portanto, necessário fazer uma perfeita distinção entre o que é supracultural e o cultural, quais são os valores bíblicos supraculturais que estão a cima de qualquer comportamento cultural.

A teologia bíblica do Antigo Testamento apresenta o mapa teológico e cultural do povo de Deus, apontando os padrões teológicos universais imutáveis e que devem ser mantidos em todas as culturas e gerações. A Bíblia apresenta os mandamentos concernentes ao relacionamento com Deus e com os homens, e Deus gasta tempo ensinando os homens como viver em sociedade. Eles se dividem em princípios de adoração e relacionamento com Deus, as leis do trabalho e descanso, vida em família, vida social, princípios morais e relacionamento com o próximo, e isto se chama sociologia da cultura. Deus estabeleceu uma sociologia cultural perfeita para o homem nela viver. Contudo na cultura da modernidade vemos a sociedade corrompida pela violência, crime, ódio, corrupção, corrosão da família e dos valores morais, corrosão da ética e caráter, corrida desinfreada pelo trabalho e capitalismo, urbanização desmedida e problemas sociais oriundos da não observância do padrão sócio-cultural e bíblico por Deus estabelecido. Este mapa cultural no Velho Testamento é um roteiro supracultural chamando o povo à obediência, garantindo-lhes que a observância dos mesmos é visando o bem estar do homem em sociedade, consigo mesmo e com seu criador.

O homem situa-se na luta de duas culturas interiores: a cultura do mundo e a cultura do reino de Deus. A Cultura do Reino são os padrões e valores próprios para aqueles que nasceram de novo no Reino de Deus. O novo nascimento gera no homem um novo comportamento e atitudes pertinentes à um filho de Deus. A cultura do Reino é uma contra-cultura cristã que se opõe ao costume habitual do mundo em que vivemos. O evangelho de Cristo nos molda a um comportamento à imagem e semelhança de Deus.

O cristão, discípulo de Cristo, precisa então travar um encontro consigo mesmo, tomando um papel para fazer uma lista realística de atitudes que são coerentes a cultura do reino de Deus e as que são do mundo. Todo ser humano já tem a noção de certo e errado, cabendo-lhe tão somente ser sincero consigo mesmo e avaliar sob qual cultura está vivendo. Por exemplo, o ato mentir, enrolar e enganar outra pessoa, infligir as leis, roubar, caluniar, falar asperamente, preguiça, deslealdade, impureza moral, sexo descontrolado, relações sexuais ilícitas, a prática sob qualquer forma de violência, o mau uso do dinheiro, a idolatria, o endividamento, a cobiça, a inveja, a ambição desmedida, ganância, a loucura do trabalho, os vícios, desonra aos pais, desrespeito à autoridades, brigas, contendas, litígios, manipulação, a não presença na família e no lar, corrupção, suborno, sonegação fiscal, negligência, e muitas outras práticas não são cabíveis ao reino de Deus e não são próprias para os filhos do Reino. Se formos honestos, saberemos medir muito bem as coisas que não são corretas, mas já nos acostumamos a conviver com elas e elas passaram a ser normais.

É necessário abrir os olhos e ver que muitos são os comportamentos e práticas em nossa cultura, que para os tais poderíamos ouvir o conselho bíblico:
“Não é próprio dos reis, ó Lemuel” (Pv.31:4), ou seja, não são compatíveis com a cultura do reino de Deus. A cultura do Reino é um caminho mais excelente, rico em valores e qualidade de vida, sendo portanto a senda do cristão, do verdadeiro discípulo de Cristo.
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Parte da tese: Etnoteologia e Antropologia Cultural.

Sobre a Autora:
Maria Leonardo, Ph.D.
Doutorado em Teologia (Etnoteologia e Antropologia Cultural).
Doutorado em Antropologia da Religião.
1. Dissertação: Antropologia Cultural, do curso de Antropologia Cultural e Desenvolvimento Social.

2. Dissertação: Relações Interpessoais em Sociologia da Cultura, do curso de Mestrado em Psicologia Social e Esfera do Terceiro Setor.
4. Dissertação: Antropologia Empresarial e Cultura Empreendedora, do curso de Pós-graduação em Administração de Pequenas e Micro Empresas.
4. Dissertação: Antropologia da Alimentação – Cultura Alimentar Brasileira, do curso de Pós-graduação em Nutrição e Saúde.
Última atualização em Qui, 02 de Abril de 2009 17:23

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